Pedro Bandeira

ilustraes de Alberto Naddeo


A Droga da Obedincia
 
A primeira aventura dos Karas (edio revista) - 90 edio

Coleo Veredas
EDITORA MODERNA


A DROGA DA OBEDINCIA

Um grupo de jovens enfrenta o mais diablico dos crimes!

Num clima de muito mistrio e suspense, cinco estudantes - os Karas - enfrentam uma macabra trama internacional: o sinistro Doutor Q.I. pretende subjugar a humanidade 
aos seus desgnios atravs de uma perigosa droga que est sendo testada em alunos dos melhores colgios de So Paulo...



Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)



Bandeira, Pedro, 1942-
A droga da obedincia / Pedro Bandeira ; ilustraes de Alberto Naddeo. - So Paulo : Moderna, 1992. - (Coleo veredas)

1. Literatura infanto-juvenil I. Naddeo, Alberto. II. Ttulo. III. Srie.
92-0649 CDD-028.5


ndices para catlogo sistemtico:

1. Literatura infantil 028.5
2. Literatura infanto-juvenil 028.5

ISBN85-16-00130-X













SUMRIO
1. Os Karas........................................................          4
2. Estranhos acontecimentos.............................          8
3. Investigao no Elite.......................................         12
4. Crnio raciocina..............................................         17
5. O plano de Miguel...........................................         21
6. Um encontro inesperado..................................         25
7. Chumbinho valente.......................................... 28
8. Um Kara nas sombras da noite........................         32
9. Decifrando a mensagem..................................         37
10. Meninos obedientes.......................................         41
11. Uma droga mais que perfeita.........................         46
12. Assalto ao banco?!.........................................         50
13. Infeliz reaparecimento...................................         53
14. Quem ser o oferecedor?...............................         56
15. Os trs incompetentes....................................         62
16. A outra mensagem de Chumbinho................         65
17. O cadver mensageiro...................................         69
18. O perigoso espiozinho.................................         72
19. Cdigos combinados.....................................         76
20. Em busca de fortes emoes.........................         80
21. Um casal de namorados curiosos..................         83
22. Na trilha de um desconhecido.......................         87
23. O delrio do Doutor Q.I.................................         90
24. Z da Silva, perigoso meliante......................         94
25. Dois Karas  melhor do que um s................         98
26. Mocinhos e bandidos.....................................        102
27. De preferncia, mortos!.................................        105
28. A capacidade de desobedecer........................        110
29. E o Doutor Q.I.?............................................        115
30. Temos de continuar!.....................................        120



  1. Os Karas
   
   A campainha do Colgio Elite no soou dando o sinal para o recreio porque o Colgio Elite no tinha campainha. Um colgio especial como aquele, para estudantes 
muito especiais, no precisava de sinal. Todas as decises no Elite contavam com a participao direta dos alunos, que, por isso, cumpriam as regras sem precisar 
de qualquer comando. As regras eram deles.
   Naquele momento, porm, Miguel no estava pensando nas regras democrticas do colgio, embora fosse um dos mais entusiasmados oradores das assemblias semanais. 
No estava tambm ligado nas suas responsabilidades como presidente do Grmio do Colgio Elite.
   Enquanto andava apressado, depois de passar pela sala do diretor, a preocupao de Miguel era bem outra. Na biblioteca, examinou a coleo de jornais dos ltimos 
meses e separou algumas matrias. A copiadora rapidamente lhe forneceu duplicatas dos trechos escolhidos.
   Com a pasta de cpias debaixo do brao direito, Miguel entrou silenciosamente no anfiteatro do Elite. De frente para o palco, onde ensaiava o elenco de teatro 
do colgio, ele mostrou rapidamente a palma da mo esquerda. Nela, algum viu um K desenhado a tinta.
   
   ***
   
   A professora de arte ficou chateada quando o ator principal da pea pediu para deixar o ensaio, pois no agentava mais de dor de cabea.
   - Est bem, Cal*. V tomar um comprimido.
    * Chamamos a ateno para a grafia dos nomes Magr e Cal. Embora gramaticalmente incorreta, a acentuao desses nomes visa evitar pronncia diferente daquela 
pretendida pelo autor.
   
   
   * * *
   
   Ningum entendeu quando Crnio abandonou aquela partida de xadrez, reconhecendo uma derrota que no existia, j que seu adversrio estava irremediavelmente perdido, 
com um bispo a menos e o rei encurralado, em posio de levar xeque-mate em poucos lances.
   Mas o xadrez tinha de esperar, porque o jovem gnio do Colgio Elite tinha visto um K desenhado na palma da mo que se abrira na entrada da sala de jogos.
   Quando Magr viu aquele K, estava no meio de uma cortada fulminante que no pde ser aparada pelas jogadoras do outro time. E o professor de Educao Fsica teve 
de lamentar a sada da melhor jogadora de vlei do Colgio Elite. Afinal, a garota tinha se queixado de uma toro no tornozelo. Era melhor no forar, pois o campeonato 
intercolegial comearia no prximo ms, e o time no era nada sem a Magr.
   A garota saiu mancando da quadra at se ver fora das vistas do professor. A, no precisando mais fingir, correu para o esconderijo secreto dos Karas.
   
   * * *
   
   Na entrada dos vestirios do Colgio Elite, havia um quartinho onde eram guardadas as vassouras e outros materiais de limpeza. Um cantinho sem lmpada, escuro 
mesmo de dia. Por isso ningum podia ver o pequeno alapo que havia no forro.
   Com a agilidade de um gato, Magr saltou, agarrando a beirada do alapo. Afastou a tampa e jogou o corpo para cima como um trapezista.
   Estava no esconderijo secreto dos Karas: todo o vasto forro do imenso vestirio do Colgio Elite, iluminado no centro por algumas telhas de vidro por onde passava 
a luz do dia, deixando todo o resto mergulhado na escurido.
   Bem no centro da pequena rea iluminada, estava Miguel, sentado sobre os calcanhares. A sua frente, espalhadas pelo cho, havia vrias cpias de matrias de jornal. 
Ao seu lado, Crnio e Cal esperavam em silncio.
   Magr fechou o alapo e agachou-se junto aos amigos, sem uma palavra.
   O grupo dos Karas estava completo. Haviam sido convocados pelo K desenhado na mo esquerda de Miguel, o sinal de emergncia mxima.
   Crnio tirou sua famosa gaitinha do bolso e ficou passando-a pelos lbios, sem soprar, lentamente.
   Cal quebrou o silncio, sem se preocupar com o tom de voz, pois o forro do vestirio era bem espesso e no deixava vazar nenhum som:
   - O que houve, Miguel?
   Com os olhos nas cpias de jornal, ainda sentado como um sacerdote budista, Miguel falou pausadamente:
   -  uma emergncia mxima. Est na hora de os Karas... Um rudo veio do alapo. Por um dcimo de segundo, os
   Karas se entreolharam. O grupo estava completo. Quem estaria invadindo o esconderijo?
   Obedecendo a um sinal de cabea do lder, Crnio, Magr e Cal saltaram para longe da luz, escondendo-se silenciosamente na escurido.
   Estariam descobertos? Ou seria algum servente do colgio que resolvera subir no forro do vestirio por alguma razo inocente?
   A tampa do alapo foi afastada. Os Karas puderam perceber que havia algum pendurado na beirada, esforando-se para subir. Parecia ser um corpo bem mais leve 
do que o de qualquer um dos serventes.
   Magr estendeu o brao e apertou a mo protetora de Miguel.
   Uma cabecinha apareceu na abertura do alapo e uma vo-zinha brincalhona invadiu o forro:
   - Vamos, Karas, apaream! Eu sei que vocs esto a!
   O dono da vozinha e da cabea pulou para dentro do esconderijo, fechou o alapo e avanou at a rea iluminada.
   Os Karas puderam ver a carinha sorridente do Chumbinho.
   
   * * *
   - Como , Karas? Eu sei quem vocs so, o que vocs so e sei que esta deve ser uma reunio importante.
   Dos cantos escuros no veio nenhuma resposta. O pequeno intruso continuou:
   - Que surpresa, hein? Eu sei tudo sobre vocs. H muito tempo eu estou de olho em todos os seus movimentos. Mas no precisam esquentar a cabea: s eu sei de 
vocs, no contei nada a ningum!
   O silncio novamente respondeu ao menino.
   - E ento? Querem brincar de esconde-esconde? Ah, ah, ah! Eu pensava que os Karas se reuniam para coisas mais importantes!
   Cal mordeu o lbio e Magr apertou um pouco mais a mo de Miguel, enquanto Chumbinho continuava com a brincadeira, saboreando o seu triunfo:
   - Querem que eu encontre vocs? Quem vai ser o primeiro? A Magr-magricela? O Crnio? O Cal? Ou vamos comear pelo chefo? Hein, Miguel? O que voc me diz? Eu 
sei ou no sei quem so vocs?
   Lentamente, cada um dos Karas saiu da escurido. Chumbinho logo estava cercado pelos quatro, bem debaixo da luz que se escoava pelas telhas de vidro. O menino 
era um palmo mais baixo que o menor dos Karas, mas seu sorriso era o de um gigante:
   -Ol, pessoal! Por essa vocs no esperavam, hein?
   Magr agarrou o garoto pela gola do uniforme: - Seu pirralho! Eu devia...
   - Ei, calminha, campe!  assim que vocs recebem as
   visitas?
   - Largue o menino, Magr.
   Era a voz de Miguel. Baixa, seca, como deve ser a voz de um comandante.
   Magr soltou Chumbinho, e Miguel ps a mo no ombro do invasor:
   - O que voc quer aqui?
   - Ora, Miguel, ainda pergunta? Eu quero ser um dos Karas,  lgico!
   
   
   

  2. Estranhos acontecimentos
   
   Chumbinho teve de esperar no escuro, mas a reunio dos quatro Karas, improvisada para resolver o problema provocado pelo menino, foi rpida. No havia o que discutir, 
pois o pirralho descobrira o esconderijo secreto. O jeito era continuar a reunio como se Chumbinho fosse um dos Karas. Mais tarde teriam de encontrar outro esconderijo 
e despistar o garoto. Todo o esquema de segurana dos Karas teria de ser alterado, as rotinas revistas, os cdigos secretos modificados. Diabo! Ia ser uma mo-de-obra 
danada. Raio de moleque!
    claro que Chumbinho devia pensar que os Karas eram uma equipe maluca que se reunia secretamente para brincar de espio e detetive, porque o menino quase chorou 
de emoo quando foi submetido a uma rpida "cerimnia de iniciao" na "Ordem dos Karas", que Miguel inventou na hora s para fazer feliz o pequeno invasor.
   Espetaram o dedo do menino com um canivete, fizeram-no escrever uma declarao de fidelidade e carimb-la com o prprio sangue (uma gotinha s); ele teve de repetir 
um juramento (tambm inventado na hora) cheio de expresses como "at  morte", "oferecerei a prpria vida" e outras bobagenzinhas que deixaram o pobre do Chumbinho 
com um n na garganta e uma lgrima equilibrada na beiradinha da plpebra.
   Cal queria introduzir outras brincadeiras na tal cerimnia, mas Miguel no deixou; a emergncia mxima no podia mais ser adiada.
   
   * * *
   
   Agora eram quatro ouvindo Miguel e as razes da emergncia mxima, s que um deles no cabia em si de orgulho e achava que todo mundo estava ouvindo o bater emocionado 
do seu coraozinho.
   - E claro que todos vocs j ouviram falar do desaparecimento de estudantes - recomeou o lder dos Karas. - Vejam aqui nestes jornais: este rapaz sumiu do Equipe, 
esta garota, do Dante, este outro, do Rainha, este aqui, do Galileu, esta, do Objetivo, outro do Dante, um do Vera...
   - Mas o Elite, at agora, est fora disso - interrompeu Magr. - No sei ento por que os Karas...
   - O "at agora" acabou, Magr. Neste instante, na sala do diretor, esto os pais do Bronca com dois sujeitos com pinta de polcia.
   - E da? Isso no quer dizer que...
   - Eu vi as caras de fantasma dos pais do Bronca, pessoal. Cheguei perto e ouvi a me dele chorando e dizendo: "Meu filho! Onde est o meu filhinho?..."
   -  mesmo! - lembrou Cal. - Desde a semana passada eu no vejo o Bronca!
   Todos se calaram. A terrvel onda de desaparecimentos estava apavorando a cidade. Em dois meses, vinte e sete estudantes haviam se evaporado sem deixar nem cheiro. 
A polcia rodava feito barata tonta, percorrendo a cidade com as sirenes abertas, batendo em todas as portas, dando entrevistas para todos os canais de televiso, 
e nem um bilhete ou uma nota de resgate tinha aparecido para jogar um pouco de luz naquele mistrio. Agora, parecia ser a vez do Elite.
   Chumbinho estava excitadssimo. Durante meses tinha seguido cada passo dos Karas, tinha preparado cuidadosamente seu plano e, no momento certo, tinha conseguido 
o que queria: ser um dos Karas, o avesso dos coroas, o contrrio dos caretas! E agora estava envolvido numa aventura da pesada. Com seqestros, polcia e tudo. Era 
demais!
   - Logo o Bronca! - lembrou Chumbinho. - Ainda na sexta-feira eu convidei o Bronca para uma escapadinha at o fliperama. Gozado! Ele estava to... to esquisito...
   At aquele momento, Crnio s tinha ouvido a discusso, com sua gaitinha nos lbios, sem um som e tambm sem uma palavra.
   - Esquisito, Chumbinho? - perguntou Crnio. - Esquisito, como?
   - Sei l. Esquisito... careta... diferente... sei l!
   - Fale, garoto! -comandou Miguel. -Tudo pode ajudar a gente.
   Mais uma vez Chumbinho tinha conseguido tornar-se o centro de atrao dos Karas. Estava radiante!
   - Bom... vocs sabem como  o Bronca...
   - Claro que sabemos, Chumbinho - apressou Magr. -  o sujeito mais esquisito do Elite.  por isso que todo mundo chama o Bronca de Bronca.
   - Pois  - continuou Chumbinho. - Na sexta-feira, ele estava diferente. Era como se no fosse o Bronca. Diferente! Parecia um carneirinho, mas um carneirinho 
com um olhar estranho, parado, nem sei explicar direito...
   - V se d um jeito de explicar, moleque! - ralhou Cal. - Fala logo. V se no enrola!
   - No estou enrolando, Cal! Eu falei pra gente pular o muro e ir at o flper, mas o Bronca disse que no, ficou dizendo que era proibido, ficou repetindo que 
tudo era proibido, que ele tinha de obedecer...
   A Cal estourou:
   - Ora, deixa de besteira, Chumbinho! O Bronca  o maior rebelde do Elite. Proibio pra ele  piada!
   - Mas  isso mesmo que eu estou tentando explicar! Por isso  que eu disse que ele estava to diferente. Estava... obediente...
   - Obediente?! -riu-se Cal. -Tem graa! O Bronca, obediente!
   Miguel compreendeu que, pelo menos por enquanto, no ia ser possvel livrar-se do Chumbinho. Por enquanto ele poderia ser til. Era uma testemunha. Mais tarde 
no faltaria ocasio de inventar uma forma de afastar o garoto.
   - Muito bem, Karas, vamos agir. Magr, tente descobrir se o Bronca tinha alguma namorada. Com cuidado. Pelo jeito, nem os pais, nem a polcia, nem o diretor querem 
que o desaparecimento venha a pblico. Eu vou descobrir onde ele mora e procurar os lugares que ele freqentava. Cal, papeie com os colegas de classe do Bronca. 
Descubra quem foi o ltimo a falar com ele. Descubra tudo o que puder. Amanh nos encontraremos aqui, no primeiro intervalo.
   - E eu? - perguntou Chumbinho.
   Raio! O que fazer com o Chumbinho? Ele era necessrio para descrever os ltimos passos do Bronca, mas era s. Se ele no tivesse alguma tarefa, ia acabar perturbando. 
Miguel teve uma idia: havia o Bino, um garoto novo na escola, meio apagado, que tinha sido transferido para o Elite h poucos dias. Era isso! Bastava colocar Chumbinho 
em campo neutro e ele no iria atrapalhar.
   - Preste ateno, Chumbinho. Agora voc  um dos Karas. No se esquea do seu juramento. Quero que voc cole no Bino, mas com muito cuidado. Pergunte se ele j 
fez amizades no colgio, pergunte se ele conhece o Bronca... no force nada e no fale do assunto com mais ningum. Amanh voc me conta o que conseguiu, t?
   - Jia, chefe! - O menino sorriu feliz. - Deixa comigo!
   - Quanto a voc, Crnio...
   - Eu? - riu-se o gnio da turma. - Eu vou pra casa!
   - Pra casa?! - estranhou Chumbinho. -Numa hora dessas? Fazer o qu?
   - Pensar, Chumbinho, pensar...
   
   

  3. Investigao no Elite
   
   Todas as manhs, a chegada dos estudantes ao Colgio Elite era uma algazarra total. Naquela tera-feira, a excitao era muito maior, pois o desaparecimento do 
Bronca no era coisa que se conseguisse manter em segredo, embora o diretor do colgio tivesse tentado abafar o escndalo de todas as maneiras.
   Os Karas tinham passado todo o dia anterior investigando secretamente, e a polcia tambm tinha feito a sua parte. Por todos os lados, policiais fardados e  
paisana espalhavam-se como se o Elite estivesse para ser atacado por um exrcito.
   Agora Miguel estava ali, na sala do professor Cardoso, o diretor do Colgio Elite. Um homem importante. Nacionalmente, ou melhor, mundialmente respeitado como 
o criador de uma experincia educacional avanadssima, o Colgio Elite.
   Naquele colgio, a palavra dilogo traduzia o relacionamento entre alunos e professores, ou entre representantes dos alunos e direo do colgio. E ali estavam 
Miguel, como presidente do Grmio, e o professor Cardoso, como diretor.
   - Miguel, eu conto com voc - comeou o diretor. -  preciso manter os estudantes tranqilos e confiantes na atuao da polcia. Tudo est sob controle. No h 
nada a temer. A poliria i tnmnn tnHas as providncias.
   - Que providncias, professor Cardoso? A polcia j encontrou o Bronca? J sabe o que aconteceu com os outros estudantes desaparecidos?
   - Ainda no, Miguel. Mas...
   - Ento a nica forma de acalmar os alunos do Elite  falar a verdade para eles.
   O professor Cardoso encarou Miguel, com uma expresso divertida:
   - A verdade? Qual verdade?
   - S existe uma verdade, professor Cardoso.
   -  mesmo? - sorriu o diretor. - E qual  ela?
   -  falar francamente do desaparecimento do Bronca.  contar a eles tudo o que a polcia j descobriu.  alert-los para que eles possam se proteger e evitar 
que um deles seja a prxima vtima.
   - A prxima vtima? Quem lhe disse que haver uma prxima vtima?
   - E quem garante que no haver, professor Cardoso?
   O diretor recostou-se no espaldar alto de sua cadeira giratria. Percebeu que no seria fcil dobrar a personalidade do rapazinho.
   - Eu no posso garantir a voc que nenhum outro garoto ser seqestrado, Miguel. Mas eu posso assegurar-lhe que qualquer escndalo maior em torno do desaparecimento 
do nosso aluno s poder ser prejudicial ao Elite.
   - Acho que no se trata de evitar escndalos envolvendo o Elite, professor Cardoso. O Elite j est envolvido.
   O diretor suspirou profundamente:
   - H pouco voc disse que s existe uma verdade, no foi, Miguel? Voc ainda  muito jovem, no faltar ocasio de aprender que as coisas so relativas. A verdade 
tem vrias facetas. Dependendo do lado que se olha, um mesmo fato pode parecer totalmente diferente.
   - Eu s vejo um modo de olhar a verdade - interrompeu Miguel. - O modo certo.
   O professor Cardoso ignorou a interrupo:
   - Veja o caso do desaparecimento do Bronca, por exemplo. Se alertarmos nossos alunos, talvez estejamos alertando
   tambm os seqestradores. Se contarmos a todo mundo o que sabemos, talvez estejamos nos revelando tambm para os bandidos.
   - O senhor quer dizer que j h suspeitos aqui mesmo, no Elite?
   - Eu no disse isso. Para no prejudicar as investigaes, a polcia no est confiando nem em mim. E eles esto muito certos. J conseguimos tambm a colaborao 
da imprensa. Nenhuma providncia policial ser noticiada at que os estudantes sejam encontrados. S falta agora a sua colaborao, Miguel. Conhecemos a sua liderana 
e contamos com ela. Temos de impedir o pnico dentro do Elite.  s isso que eu peo: impedir o pnico.
   - Verei o que posso fazer, professor Cardoso. Nesse momento, a secretria do diretor abriu a porta:
   - Professor Cardoso, os policiais chegaram.
   - Eu estava esperando por eles. Pea para entrarem, por favor.
   Eram dois detetives de terno, com expresso sisuda, prpria da profisso, e cansada, de quem estava s voltas com vinte e oito desaparecimentos de estudantes. 
Sentaram-se no amplo sof da diretoria. Um deles brincava com um molho de chaves, fazendo um barulho ritmado, irritante.
   O professor Cardoso apontou para o mais velho dos dois homens, um sujeito meio gordo, suarento, que mal cabia no terno surrado.
   - Miguel, este  o detetive Andrade. Ele quer fazer algumas perguntas a voc.
   O detetive enxugou o suor do pescoo e da careca com um leno amarrotado e falou, sem olhar para o garoto, como se estivesse interrogando as paredes:
   - Eu estou no comando das investigaes, meu rapaz, embora ache que no h nada para investigar. Essa juventude irresponsvel  assim mesmo. Vai ver, o tal garoto... 
Como  mesmo o apelido dele? Bronca, no ? Vai ver, o tal do Bronca est por a aprontando alguma confuso, enquanto faz a polcia perder tempo. Na certa, daqui 
a pouco vai reaparecer com a cara mais sem-vergonha do mundo. Ah, essa juventude!
   O outro detetive levantou-se, caminhou at Miguel e colocou a mo amigavelmente no ombro do garoto. Era mais moo que Andrade, e Miguel sentiu uma sensao de 
conforto, de amizade, no rosto simptico e bem barbeado do detetive.
   - Como vai, Miguel? Eu sou o detetive Rubens. J ouvi dizer que voc  um timo presidente do Grmio do colgio. Pode ficar tranqilo. Vamos descobrir o que aconteceu 
com o Bronca.
   A grossa porta da sala do diretor foi aberta naquele momento e por ela entrou Chumbinho, acompanhado por um guarda. Miguel ouviu novamente o barulhinho chato 
do molho de chaves.
   - Com licena, detetive Andrade - pediu o guarda, apontando Chumbinho - mas parece que este menino foi o ltimo a encontrar-se com o desaparecido.
   Andrade levantou-se do sof com dificuldade. A sua expresso era de desinteresse, mas, no seu olhar, Miguel percebeu um brilho que desmentia a expresso.
   - Voc foi o ltimo a ver o Bronca, no , garoto?
   O corao de Miguel bateu apressadamente. Havia alguma coisa estranha, alguma coisa muito estranha no ar. E ele decidiu que a situao no era para confiar. Mas, 
e Chumbinho? Ser que ele conhecia mesmo todos os sinais e cdigos secretos dos Karas?
   - Acho que fui eu, sim - ia dizendo o menino no momento em que Miguel cruzou os braos.
   Sim. Chumbinho sabia o que significavam os braos cruzados. Era o sinal de silncio dos Karas. Equivalia a um dedo encostado nos lbios, s que ningum sequer 
desconfiava. Era preciso ser um Kara, e Chumbinho, agora, era um deles.
   - E ento, menino? - perguntou o detetive Andrade, irritado. - O que voc viu? O que o tal Bronca disse? Havia algum desconhecido com ele? Havia alguma coisa 
estranha com ele? Ele disse alguma coisa? Vamos, fale, garoto!
   Os olhos do Chumbinho piscaram inocentemente:
   - Bem... sabe? Eu tinha dado uma escapadinha at o fliperama, n?  que eu sou muito bom em fliperama, sabe? Pois , acho que eu sou o melhor do colgio. Junta 
gente em volta quando eu estou jogando..
   - T bom, garoto. E o Bronca?
   - Ah, o Bronca no  muito bom em flper, no. Ele  meio esquentado, no tem pacincia, sabe?
   - E da?
   - E da que ser bom em fliperama no  pra qualquer um. Eu, por exemplo...
   Andrade perdeu a pacincia:
   - Vamos, garoto. Eu no tenho o dia todo. Vamos direto ao ponto.
   - Que ponto?
   - O Bronca, menino! Voc encontrou ou no encontrou o Bronca?
   - O Bronca? Ah, sim, o Bronca.  claro que eu encontrei.
   - E o que foi que ele disse?
   - Ele disse oi.
   - Oi?
   - Oi.
   - E voc?
   - Eu o qu?
   - O que  que voc disse?
   - Eu? Eu respondi oi, tambm.
   O rosto de Andrade avermelhou-se. O detetive estava furioso e apertava o leno com ambas as mos, enquanto o suor gotejava-lhe pela careca. Sua voz saiu espremida, 
com raiva:
   - Voc est me gozando, moleque?
   - Eu? Eu no, senhor... Rubens sorriu para Chumbinho:
   - Foi s isso? Ele no disse mais nada? Chumbinho continuou com carinha inocente:
   - No. Foi s oi. Ele devia ter dito outra coisa? Foi a que o detetive Andrade explodiu:
   - Ponha-se daqui pra fora, moleque! E voc a, descruze os braos. Isso no  modo de se portar diante de uma autoridade!
   Quando a porta da diretoria se fechou atrs dos garotos, Miguel podia ouvir o irritante barulhinho do molho de chaves nas mos do detetive.
   

  4. Crnio raciocina
   
   Quando Miguel e Chumbinho fecharam o alapo depois de pular para o esconderijo secreto, da gaitinha do Crnio vinha uma melodia lenta, que se espalhava por todo 
o forro do vestirio do Elite.
   - Por que voc fez o sinal de silncio, Miguel?
   O lder dos Karas sorriu quando olhou para o menino. No dedo indicador da mo esquerda do Chumbinho, aquele que havia levado uma espetadinha para a tal "cerimnia 
de iniciao", havia um enorme curativo. O dedo do garoto estava enrolado com gaze e esparadrapo como se tivesse sofrido um srio acidente...
   - Est rindo de qu, Miguel? Eu perguntei por que voc fez o sinal de silncio.
   - Ahn? No sei, Chumbinho. Eu achei que havia alguma coisa estranha, alguma coisa que me deixou desconfiado. Achei melhor no falar nada agora. Alm do mais, 
ns sabemos muito pouco.
   - Mas tem aquele jeito estranho do Bronca. Ele nunca foi obediente assim.
   - Pois , Chumbinho.  s isso que temos. E no vamos contar nada para ningum. Pelo menos por enquanto.
   Magr e Cal chegaram juntos, e a menina foi a primeira a apresentar seu relatrio. Enquanto Magr falava, o som da gaitinha do Crnio ficou suave como uma carcia.
   - O Bronca tinha uma namorada, sim, mas a garota no sabe de nada. No viu nada, nem ningum estranho. Est to "desconsolada" com o desaparecimento do Bronca 
que at j arranjou outro namorado pra ter com quem se "consolar"...
   - E voc, Cal?
   - Nada estranho, Miguel. Ningum se lembra de ter visto o Bronca falando com algum desconhecido, nem sabem dizer se o Bronca estava diferente. Nada, nada mesmo.
   - Eu descobri que o Bronca era um sujeito meio reservado - relatou Miguel. - No deu para saber se ele freqentava algum lugar especial fora do colgio. Acho 
que estamos empacados, Karas. Nem sei por onde comear.
   - E eu, Miguel? - perguntou Chumbinho apontando para si mesmo com o dedo enfaixado.
   Ai, ai, ai, Miguel tinha se esquecido do Chumbinho! Era preciso manter o menino interessado at que fosse possvel despist-lo. Se o moleque se sentisse  margem, 
poderia botar a boca no mundo e revelar todos os segredos dos Karas. O jeito era seguir com o jogo:
   - E voc, Chumbinho? Descobriu alguma coisa?
   - Eu grudei no Bino o dia todo, como voc mandou, e descobri que ele  legal. Gente fina, bom papo. S que no  de nada no flper...
   - No diga, Chumbinho!
   - Descobri tambm que ele no era muito ligado no Bronca. Parece que papearam uma ou duas vezes, s isso.
   Nessa altura, todos os olhares estavam fixos no Crnio. O rapazinho parou de tocar a famosa gaitinha, bateu-a na coxa para enxugar, e falou, correndo os olhos 
por todos os companheiros at encontrar os grandes olhos de Magr. Enrubesceu um pouco e comeou:
   - Este no foi um seqestro comum, Karas. Acho que no devemos esperar por algum bilhete ou telefonema misterioso
   Crnio espalhou as cpias de recortes de jornal pelo cho:
   - O Bronca  o vigsimo oitavo estudante a desaparecer em cerca de dois meses. Vejam: desapareceram trs estudantes de nove colgios diferentes. E fcil concluir 
ento que o Bronca  a primeira vtima do Elite.
   - A primeira vtima?! O que  que voc quer dizer com isso?
   - Quero dizer que estamos agindo contra uma organizao poderosssima, na certa dirigida por uma cabea privilegiada. Finalmente, um rival  minha altura!
   - Mas os seqestras...
   - No so seqestras comuns. H um mtodo. Um mtodo cientfico de amostragem. Esto sendo recolhidas trs amostras de cada um de pelo menos dez diferentes colgios, 
todos do mesmo padro. Pelo jeito, eles querem jovens da classe alta, bem alimentados, saudveis, boas cabeas, atlticos...
   - Ento quer dizer que...
   - Quer dizer que mais dois alunos do Elite devem ser seqestrados ainda esta semana. Hoje mesmo, talvez!
   
   ***
   
   Os Karas se entreolharam. A lgica do raciocnio do Crnio era indiscutvel. O perigo estava presente. E a ameaa era grave.
   - Eles vo pegar mais dois de ns! - espantou-se a menina. - Mas, para qu?
   - No sei ainda, Magr. Cheguei a pensar em um seqestro em massa para a obteno de um vultoso resgate das maiores fortunas de So Paulo. Mas, nesse caso, por 
que exatamente trs alunos de cada colgio? Por que sempre os mais saudveis, atlticos e inteligentes? Por que no simplesmente os mais ricos? Est claro! Ele no 
vai pedir resgate...
   - Ele? Ele quem?
   - No sei quem  ele. Mas eu sinto que estou diante de um grande crebro, algum muito especial. Perigosamente muito especial...
   - Mas o que esse tal crebro pretende com os estudantes seqestrados?
   - Acho que esse crebro criminoso no est seqestrando estudantes, Cal. Est recolhendo cobaias!
   - Cobaias humanas?! - assustou-se Chumbinho.
   - Exatamente. Cobaias sadias, bem nutridas, para algum tipo de experincia maluca. Maluca e macabra!
   Chumbinho entendeu de repente toda a extenso do perigo que rondava o Elite:
   - Ento era por isso que o Bronca estava estranho daquele jeito! To obediente e to careta. Vai ver eles hipnotizaram o Bronca pra facilitar o seqestro!
   - Nada disso, Chumbinho - interrompeu Crnio. - Em hipnose eu sou especialista. Cientificamente, a hipnose  um mtodo muito interessante, mas tem as suas falhas. 
No  todo mundo que pode ser hipnotizado. E o nosso genial inimigo no admite falhas. O mtodo dele  certeiro!
   - Ento... - raciocinou Magr - se o Bronca estava diferente, de olho parado, alguma coisa fizeram com ele. Se no foi hipnose, ento...
   - Ento?
   - Ento vai ver deram uma droga pra ele!
   - Isso mesmo, Magr - Miguel confirmou. - Uma droga. S o efeito de uma droga poderia explicar o comportamento do Bronca...
   Chumbinho entusiasmou-se:
   -  isso! Eles agarraram o Bronca e obrigaram o coitado a tomar a tal droga!
   -  fora? - sorriu Crnio. - Se eles pegaram o Bronca  fora e aplicaram-lhe uma droga, por que no carregaram logo com ele? Por que ele ficou livre para circular 
por a e ainda bater um papinho com voc?
   Chumbinho calou-se, e a hiptese mais terrvel surgiu clara na cabea de Miguel:
   - Ento o Bronca tomou a droga por sua livre vontade? Nesse caso...
   - Nesse caso a droga foi oferecida a ele tranqilamente, por algum que ele conhecia e em quem confiava - ajuntou Crnio. - E, se o Bronca estava no Elite sob 
o efeito da droga, o mais lgico  supor que ele tenha tomado a droga aqui dentro, no?
   - ... Parece lgico.
   - Ento esse tal oferecedor de drogas que ele conhecia e em quem confiava... - comeou Caiu.
   Crnio arrematou:
   -  daqui, de dentro do Elite!
   - Barbaridade! E ele vai agir de novo! Duas vezes! Talvez at j esteja agindo!
   
   
   
   

  5. O plano de Miguel
   
   O silncio ocupou todo o esconderijo dos Karas. No havia medo no ar, pois aquele grupo no era de sentir medo. Mas os cinco coraes batiam apressados, injetando 
nimo nos cinco corpos, para enfrentar toda a ao que estava para vir.
   As notas agudas da gaitinha do Crnio se fizeram ouvir, tornando ainda mais pesado o ambiente. Miguel estava pensando. Pensando estavam todos, e Chumbinho deu 
uma tossida que revelava o seu nervosismo.
   -  o p... Isto aqui est cheio de p... - desculpou-se o menino.
   Sentado nas pernas, que era o jeito de Miguel sentar-se, o lder dos Karas encostou o queixo no peito e fechou os olhos, em grande concentrao. A seu lado, o 
corao de Magr fazia subir e descer o ltimo E do nome do colgio, impresso na camiseta da menina.
   Quase encostado no geniozinho dos Karas, Cal sussurrou, com malcia:
   - Voc j notou os peitinhos que esto crescendo na Magr?
   Por um instante, a calma do Crnio pareceu perturbada:
   - Numa hora como esta, voc...
   - Calma! - brincou Cal. - Eu esqueci que voc s pensa cientificamente...
   Crnio conseguiu controlar-se:
   - Eu no penso s em mquinas, Cal. Eu penso em carne tambm...
   - No v me dizer agora que voc tambm  humano... Mas a provocao de Cal no encontrou ouvidos. Crnio
   estava novamente tocando a gaitinha, e em seu crebro s havia lugar para o mistrio dos estranhos desaparecimentos.
   O lder dos Karas levantou a cabea e olhou para Chumbinho. Decidiu que estava na hora de acabar com a brincadeira do menino. O plano que tinha de ser posto em 
prtica era arriscado, e ele no podia expor um garotinho como aquele a uma quadrilha to impiedosa.
   Miguel encerrou a reunio, dizendo que tinha prova de matemtica naquele dia e precisava estudar na biblioteca.
   - E a investigao?
   - No avanamos muito hoje, Chumbinho. Recomearemos amanh. O Elite est cheio de policiais. Acho que no temos nada a temer por enquanto. O tal oferecedor deve 
esperar por uma oportunidade melhor.
   Um a um, todos os Karas foram deixando o esconderijo. Os mais veteranos, Magr, Cal e Crnio, sabiam muito bem que Miguel jamais adiaria uma ao. Entenderam 
que o amigo tinha um plano e sabiam que "estudar na biblioteca" era um cdigo que indicava, a cada um, qual a prxima tarefa a cumprir.
   Chumbinho no sabia disso, e foi pensando, revoltado:
   "Esperar?! Mas o prprio Crnio no disse que o tal oferecedor poderia estar agindo agora mesmo? De repente, vem o Miguel e diz que a polcia tem tudo sob controle 
e que no vai acontecer mais nada... E eu que achava os Karas um grupo to sensacional! Bom, se Miguel pensa que eu vou ficar parado enquanto ele estuda pra tal 
provinha, est muito enganado!"
   E, apressadamente, Chumbinho foi fazer o que achava que tinha de fazer.
   
   * * *
   
   Cada um por sua vez, todos os Karas veteranos passaram pela biblioteca, depois que Miguel saiu de l.
   Na pgina 112 do texto da pea O auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, Cal encontrou sua tarefa em cdigo. No Minhas sessenta melhores partidas, de Bobby 
Fischer, Crnio descobriu o que tinha de fazer. E no Karat vital, de Matsutatsu Oiama, estava a parte da Magr.
   No havia um minuto a perder. As ordens de Miguel eram claras. E os Karas puseram-se a campo.
   
   * * *
   
   Miguel sabia que aqueles desaparecimentos tinham algum detalhe em comum. Tinham de ter. Quando eles descobrissem qual era esse detalhe, certamente chegariam  
soluo do problema.
   Examinando as notcias dos jornais, Miguel verificou que o mtodo da quadrilha era seqestrar todos os trs estudantes de uma mesma escola antes de passar para 
a prxima. Isso queria dizer que o tal oferecedor infiltrava-se em uma escola, ganhava a confiana de trs meninos ou meninas, oferecia a droga e depois abandonava 
aquela escola.
   A estava um padro: nove escolas haviam sido "visitadas" pelo tal oferecedor de drogas em pouco mais de dois meses. Isso queria dizer que o bandido ficava mais 
ou menos uma semana em cada colgio. Portanto, deveria ser um s. Se houvesse mais de um, certamente poderiam atacar mais de uma escola na mesma semana.
   O oferecedor era um s, mas quem seria ele? Um dos professores? Miguel achava difcil encontrar um professor que trabalhasse nos dez colgios ao mesmo tempo. 
Mas, de qualquer forma, tinha mandado Crnio comparar as listas de professores de todas as escolas envolvidas.
   Um dos funcionrios no poderia ser, pois ningum consegue mudar de emprego a cada semana. Alm disso, o quadro de funcionrios do Elite era o mesmo desde o comeo 
do ano. Nin-
   Seria um dos alunos? Bobagem! Como  que um estudante poderia freqentar um colgio diferente a cada semana?
   Havia os pipoqueiros, sorveteiros e vendedores de bugigangas que sempre cercam os colgios, disputando as mesadas dos estudantes. Mas foi fcil verificar que 
todos os vendedores ao redor do Elite eram sempre os mesmos h muito tempo, e nenhum outro havia aparecido para fazer concorrncia.
   Assim, por eliminao, a lgica dizia que o oferecedor no agia dentro das escolas. Mas ele tinha de agir. Seno, como explicar que todos os estudantes tivessem 
desaparecido em suas escolas, e no em suas casas, seus clubes ou outro lugar qualquer? Como explicar o Bronca, dentro do Elite, falando com o Chumbinho e assombrado 
como um cretino?
   Claro! O oferecedor trabalhava dentro dos colgios. Era algum de dentro. S podia ser. E, se faltavam ainda dois alunos para completar a trinca que deveria desaparecer 
do Elite, o oferecedor ainda estava ali por perto. Mas quem seria ele?
   Crnio tinha razo. O plano parecia perfeito, sem uma falha, produto de uma mente criminosa fora de srie.
   Era preciso procurar outras peas para montar aquele quebra-cabea. Tinha de haver algum ou alguma coisa comum ao Bronca e aos outros vinte e sete infelizes 
que tinham cado nas mos do crebro criminoso.
   Por isso tinha mandado Magr localizar as famlias de nove dos desaparecidos, separado mais nove para Cal investigar, ficando com os ltimos nove para si.
   Quem sabe se depois, juntando o que cada um ouvisse, fosse possvel esclarecer aquele mistrio?
   
   ***
   
   Entardecia quando Miguel estacionou a bicicleta na porta de uma rica manso no Jardim Europa, depois de j ter conversado com duas famlias de estudantes desaparecidos, 
e de no ter conseguido localizar uma terceira. Foi a que um carro da polcia parou ao seu lado.
   - Ol, Miguel - cumprimentou algum de dentro do carro.
   O lder dos Karas ouviu nitidamente o barulho irritante do molho de chaves.
   
   
   
   
   

  6. Um encontro inesperado
   
   - O que est fazendo por aqui, garoto? - perguntou o detetive Andrade, saltando do carro e segurando Miguel pelo brao. - O que voc quer nesta casa?
   - Eu? Nada... -respondeu Miguel, tentando livrar-se do aperto.
   - Voc no sabe que casa  esta? Vamos, responda!
   O detetive Rubens colocou-se entre os dois. Afastou Andrade firmemente com uma das mos e passou o outro brao em torno dos ombros de Miguel.
   - Calma, Andrade. Deixe o garoto comigo.
   - No se meta, Rubens. Eu quero saber o que esse moleque est fazendo aqui. Esta  a casa daquele garoto que desapareceu l do Dante. Eu quero saber...
   Miguel tentou manter a cabea no lugar. Percebeu que o jeito era bancar o garoto assustado:
   - Eu... eu no sabia. O que  que tem essa casa? Eu ia falar com um amigo que...
   - Ah, ? - gozou Andrade. - E voc tambm estava visitando amiguinhos quando foi fazer perguntas na casa daquela menina que desapareceu do Equipe? E na casa daquele 
garoto que sumiu do Vera? Hein? Responda!
   Por um instante Miguel no soube o que responder. Ele estava sendo seguido o tempo todo! Por qu? Ser que Magr, Cal e Crnio tambm estavam sendo seguidos? 
Era preciso pensar depressa. Se a polcia desconfiava dele, era por causa de alguma coisa que ele tinha dito ou feito no interrogatrio l na sala do professor Cardoso, 
o diretor do Elite. Ento no haveria razo para desconfiar dos outros trs, a menos que a polcia soubesse da existncia dos Karas. Impossvel! Ou no? Ou... teria 
o Chumbinho aberto o bico?
   Aos poucos, a voz calma do detetive Rubens trouxe de novo o lder dos Karas  realidade:
   - Desculpe, Miguel, mas  verdade. Voc andou visitando as casas de dois dos garotos desaparecidos. Ns sabemos. Por qu? O que voc tem a ver com isso?
   - Nada.  que...
   Pela primeira vez Miguel estava atordoado. Sua presena de esprito, to brilhante em situaes inesperadas, no lhe trazia qualquer inspirao.
   Andrade no estava para brincadeiras:
   - Voc no acha suspeitas essas suas visitinhas, garoto? Logo quando um colega seu tambm sumiu?
   - O senhor est enganado. Eu vim...
   - Garoto, acho melhor me acompanhar at  delegacia. Acho que temos umas coisinhas a esclarecer.
   - Espera a, Andrade - interrompeu Rubens. - O rapaz  menor. Voc no pode...
   - Posso. Eu no estou prendendo o garoto. Estou apenas querendo interrogar uma possvel testemunha.
   - Est bem, Andrade - concordou o detetive Rubens com um suspiro resignado. - Vamos, ento.
   Andrade abriu a porta da viatura e empurrou Miguel para dentro.
   - Voc fica, Rubens. A bicicleta do garoto no cabe no carro. Fique aqui com ela. Eu mando uma viatura maior para buscar voc e a bicicleta.
   O rosto do detetive Rubens alterou-se:
   - Nada disso, Andrade. Eu vou tambm. Fao questo...
   - Quem est comandando este caso sou eu. Voc fica, Rubens!
   Andrade bateu a porta e arrancou. O guincho dos pneus deixou para trs o detetive Rubens e a bicicleta de dez marchas de Miguel.
   
   * * *
   Andrade dirigia calmamente, sem usar a sirene, e parecia mais controlado.
   - Fique tranqilo, Miguel. No precisa ter medo de nada. Desculpe o mau jeito, mas s vezes um policial precisa agir depressa. Eu queria falar a ss com voc.
   Sentado ao lado do detetive, Miguel pensou na nica sada que lhe restava. Era arriscado, mas seu instinto o aconselhava a agir depressa.
   Andrade nem pegou o microfone do carro para chamar pelo rdio uma viatura que viesse buscar o detetive Rubens e a bicicleta de Miguel. Nada disso. Dirigia devagar 
e falava com a maior calma do mundo:
   - Tenho s uma perguntinha, Miguel. Por que voc no deixou aquele menino falar, l na sala do diretor?
   - O Chumbinho? Eu no disse nada...
   - No, voc no falou. Mas, de algum modo, voc fez com que o garoto calasse a boca. No sei como voc fez, mas meus longos anos de polcia permitem que eu perceba 
pequenas coisas que no  todo detetive que percebe.
   Miguel se sentiu cercado. Todos os seus passos e at os seus gestos de comando como lder dos Karas eram do conhecimento de Andrade!
   O carro da polcia comeou a subir uma ladeira e o detetive teve de diminuir ainda mais a marcha.
   - Eu no mandei o Chumbinho calar a boca - afirmou Miguel j com a mo direita na maaneta da porta. - Pode perguntar a ele.
   - Gostaria muito de falar com o Chumbinho, Miguel. S que agora no  mais possvel...
   - No  possvel? Por qu?
   - Porque o Chumbinho tambm desapareceu!
   O impacto daquela notcia terrvel apressou a deciso de Miguel. O carro estava em marcha lenta quando ele abriu a porta e jogou-se no asfalto, rolando para longe 
da viatura policial.
   
   
   

  7. Chumbinho valente
   
   - Vamos l, Chumbinho!  uma boa. Experimente! Voc vai ver que legal!
   Chumbinho nem podia acreditar. Ele havia descoberto o oferecedor de drogas!
   Estavam num canto do ptio, e o ptio estava cheio de estudantes. Incrvel! Era possvel oferecer a droga no meio da multido, sem qualquer risco. At parecia 
que, fazendo o contato daquela maneira, o oferecedor estaria mais seguro do que se atrasse a vtima para um cantinho deserto: duas pessoas cochichando num canto 
chamam muito mais a ateno do que misturadas no meio de todo mundo...
   Agora era preciso pensar depressa. No havia nenhum dos Karas  vista. Miguel provavelmente estava na biblioteca, estudando matemtica. Crnio poderia estar jogando 
xadrez ou s voltas com os computadores do colgio. Cal estaria no anfiteatro, ensaiando, e Magr certamente estaria no ginsio de esportes, treinando alguma das 
dezenas de modalidades esportivas em que era especialista.
   Parado ali, em frente ao oferecedor, com aquele comprimido da droga na mo, Chumbinho fingia estar interessadssimo na experincia, mas no sabia o que fazer.
   O menino tinha visto o Bronca sob o efeito da droga. Ser que agora ele saberia imitar aquele comportamento idiota, sem que o oferecedor desconfiasse? Ah, se 
ele fosse um ator como Cal, a coisa seria bem mais fcil...
   O que aconteceria depois? Ele seria seqestrado como o Bronca e os outros. Chumbinho no tinha dvidas. Por isso precisava encontrar uma forma de deixar um aviso 
para os Karas.
   - Experimente, vamos!
   - T certo - concordou Chumbinho. - S que aqui vai dar na vista.  melhor l no banheiro.
   O menino correu para os banheiros do vestirio. Talvez tivesse tempo de deixar algum sinal l no esconderijo secreto. S que o oferecedor veio junto, na certa 
para se certificar de que o garoto ia fazer a coisa direitinho. E, naturalmente, para preparar o seqestro.
   Chumbinho entrou em um dos reservados e ia trancar-se quando o oferecedor entreabriu a porta:
   - Como , j engoliu?
   - J vai...
   O espao do reservado era muito pequeno, e o oferecedor no podia ficar ali dentro, junto com Chumbinho. O menino encostou novamente a porta e falou:
   - Fique de olho pra ver se aparece algum.
   - T legal. Ande logo!
   Chumbinho jogou a droga no cesto de papis. At a tudo bem. Mas, como deixar o sinal para os Karas? Ele precisava de alguma coisa para escrever e precisava tambm 
de um cdigo que no desse na vista. O qu? Como?
   - Anda logo, Chumbinho! - era a voz do oferecedor, fora da porta.
   A idia nojenta veio-lhe  cabea, mas era a nica e ele no podia perder mais um segundo. Felizmente a privada do reservado tinha sido usada por algum porcalho 
que no puxara a descarga. Tentando sufocar o nojo, Chumbinho enfiou a mo dentro do vaso. Sem perda de tempo, com a ponta do dedo suja com aquela "tinta" e sentindo 
o estmago contorcer-se em enjos, desenhou nos azulejos a mensagem para os Karas.
   Quando o oferecedor, cansado de esperar, empurrou a porta do pequeno reservado, encontrou Chumbinho apoiado na parede:
   - Desculpe, me deu uma tonteira.
   -  normal, no se assuste.
   Chumbinho cambaleou at uma pia e deixou a gua correr farta pela mo direita. Ele nem podia ajudar com a outra mo por causa do exagerado curativo da espetadinha 
da "iniciao".
   s suas costas, a voz do oferecedor veio dura, agressiva:
   - Feche a torneira. Olhe pra mim.
   Chumbinho obedeceu. Olhou para o oferecedor com o melhor ar de idiota de que era capaz. Ser que estava fazendo a coisa direito? O outro no iria desconfiar?
   - Preste ateno, Chumbinho. Voc quer me obedecer?
   - Sim, quero.
   - Muito bem. A droga j fez efeito. Agora voc vai fazer tudo o que eu mandar. Voc quer ser um bom menino?
   - Quero.
   Pela cabea do Chumbinho passava a imagem do Bronca, que ele tinha de imitar. Pelo jeito do Bronca, a droga fazia recordar todas as ordens e proibies que o 
drogado j tinha recebido na vida, e o sujeito se transformava totalmente num imbecil. A sada, ento, era representar o imbecil.
   - Voc  um bom menino, Chumbinho. Agora, eu quero que voc aja com naturalidade.
   - Sim.
   - Saia do colgio andando normalmente. V at  praa em frente e suba dois quarteires  esquerda. Pare na esquina e aguarde novas ordens. No se desvie por 
razo alguma. Todo o resto  proibido.
   - Sim.
   - Agora v, Chumbinho.
   O menino tinha representado direitinho. O oferecedor no desconfiava de nada. Na certa, porm, o vigiaria de longe at que ele chegasse  tal esquina. Diabo! 
Se conseguisse uma folga, Chumbinho at que poderia dar uma corrida at  biblioteca,  sala de jogos, ao ginsio ou ao anfiteatro do colgio para avisar um dos 
Karas. Mas ele no podia arriscar. Qualquer desvio do itinerrio indicado pelo oferecedor ia dar na vista. Sua nica esperana era que um dos Karas visse a sua imunda 
mensagem no banheiro.
   Ele seria o segundo estudante a desaparecer do Colgio Elite. Quem seria o terceiro? Mas... era bvio! E Chumbinho sorriu por dentro ao descobrir quem seria o 
terceiro a sumir do mapa...
   
   * * *
   Chumbinho saiu do colgio e caminhou lentamente pela praa. Nenhum transeunte prestava ateno nele. Qual seria o prximo passo da quadrilha?
   Uma perua toda fechada parou  sua frente. Um homem enorme saltou e olhou firme, dentro dos olhos do garoto. No parecia gente, parecia um animal de terno. Um 
animal feroz e enlouquecido.
   Chumbinho fez uma cara de idiota bem caprichada. Ele queria ser o mais convincente possvel.
   O homem abriu a porta traseira da perua:
   - Venha c, menino.
   - Sim, senhor.
   - Entre a e fique quietinho.
   A porta fechou-se atrs de Chumbinho e o menino sentiu a perua arrancar. No escuro total, no podia saber para onde estava indo.
   
   

  8. Um Kara nas sombras da noite
   
   Depois de pular para fora do carro da polcia, Miguel correu sem forar muito. Ele sabia que Andrade jamais poderia alcan-lo a p. Mesmo que fosse mais magro 
e mais jovem, Andrade nunca seria preo para um atleta como Miguel.
   Certamente o policial j deveria ter dado um alerta pelo rdio do carro, e outras viaturas da polcia logo chegariam para cercar a rea,  sua procura. Por isso 
era necessrio confundir ao mximo a prpria pista.
   Ele tinha fugido ladeira abaixo, no sentido contrrio  direo do trnsito, para impedir que Andrade o perseguisse de carro. Entrou em um jardim, atravessou 
a lateral da casa at o quintal e pulou o muro de trs, passando para o terreno de outra casa, que tambm atravessou. Estava, agora, na rua paralela quela onde 
tinha pulado para fora do carro. Era s correr ladeira acima enquanto a polcia procurava por ele ladeira abaixo.
   No alto da ladeira, entrou no primeiro nibus que parou.
   Era hora de sada do trabalho, e o nibus estava lotado de pessoas cansadas, suadas, ansiosas por chegar em casa a tempo de assistir  novela das oito. Rapazinho 
rico, como todos do Colgio Elite, Miguel estava pouco acostumado a andar de nibus, mas, misturado quela multido de trabalhadores, bem podia passar por um office-boy 
voltando para casa. O nibus era a melhor maneira de esconder-se da polcia.
   "Chumbinho!", pensava Miguel, espremido no meio daquela gente toda. "Ser que o maldito Andrade disse a verdade? Ser que Chumbinho est agora nas mos da quadrilha? 
Eu no fui com a cara do Andrade, nem ele com a minha... Pra mim, ele faz parte do esquema todo. Na certa ele pertence  quadrilha do tal crebro criminoso..."
   O sacolejar do nibus lembrou a Miguel todos os lances daquele dia, o terceiro desde que ele havia convocado aquela emergncia mxima.
   "Tem alguma coisa muito suspeita com o Andrade... Primeiro o modo desinteressado dele l na sala do professor Cardoso... Depois o jeito dele tentando me levar 
para a delegacia... E o modo como ele se livrou do detetive Rubens, impedindo que ele entrasse na viatura?  claro que Andrade no ia me levar para a delegacia... 
Na certa ele... Talvez eu pudesse confiar no detetive Rubens, mas, depois que eu fugi, certamente sou um suspeito..."
   Miguel sentia-se cansado e faminto quando desceu do nibus e procurou um telefone pblico. O nico que encontrou estava depredado por algum vndalo, como h tantos 
em So Paulo. Acabou entrando em uma lanchonete e pediu para telefonar.
   Procurou na lista o telefone do Chumbinho, pelo sobrenome do garoto. O sobrenome era meio raro e s havia um na lista.
   - Al? O Chumbinho est?
   Do outro lado da linha, a voz da me do Chumbinho estava desesperada:
   - Meu filho! Meu filho foi seqestrado!
   Miguel sentiu o corao apertar-se. Ento era verdade!
   - Seu filho vai aparecer, senhora. So e salvo. Eu juro!
   - Quem est falando?
   Mas Miguel j tinha desligado. Em seguida, discou o nmero de Cal.
   - Al? - era a voz do melhor ator do Colgio Elite.
   - Emergncia mxima, Kara! Chumbinho desapareceu!
   - Mas como...
   - Acabei de ligar para a casa dele. Precisamos agir. No confie em ningum, principalmente no detetive gordo e careca, chamado Andrade.
   - T bom. Onde voc est?
   - No importa. Amanh de manh me encontre no esconderijo secreto. E o nico lugar seguro para mim agora. Vou passar a noite l. Telefone para a minha casa, Cal. 
Imite a minha voz e diga que eu vou dormir na sua casa esta noite. Invente que vamos estudar juntos para uma prova, ou qualquer coisa parecida. No quero que minha 
famlia fique preocupada.
   - Certo, Miguel.
   - Voc j verificou todos os endereos que eu indiquei?
   - J. Alguns no deu pra localizar. Consegui todos os endereos com as prprias escolas, mas acho que me informaram errado.
   - Eu no consegui visitar todos os meus. Tome nota dos que faltam e tente interrogar os pais desses garotos por telefone. Finja que  um policial... Ei, Cal, 
voc tem certeza de que  capaz de imitar voz de adulto?
   - E claro, Kara!
   - Muito bem. Tente descobrir tudo o que puder. Quem sabe no localizamos alguma pessoa comum a todos os seqestradores? Se descobrirmos, teremos encontrado o 
oferecedor.
   - Certo. E quais os pais que faltam?
   - Tome nota.
   - Pode falar. Estou anotando.
   Miguel ditou a relao para Cal e despediu-se:
   - Reunio amanh s oito. Todo os Karas!
   - Amanh s oito, Miguel.
   Miguel desligou o telefone. Nada mais havia a fazer naquela noite. Dali em diante, ele teria de estabelecer o seu quartel-general no esconderijo secreto e prosseguir 
a investigao usando os outros Karas que ainda no eram conhecidos pela polcia.
   Ainda na lanchonete, tomou um suco de laranja e comeu um sanduche. Fez o prximo percurso utilizando trs nibus diferentes e, quando chegou ao Elite o colgio 
estava s escuras
   Miguel pulou o muro do ptio silenciosamente, para no atrair a ateno dos vigias da noite. Era lua cheia, e o luar iluminava fracamente as quadras. O garoto 
esgueirou-se junto ao muro, como uma sombra.
   Perto dos vestirios, dois vigias conversavam preguiosamente.
   Miguel pegou uma pedrinha e jogou-a violentamente contra a tabela de basquete que havia do outro lado do ptio.
   - Voc ouviu isso? - perguntou um dos vigias.
   - Ouvi. No  nada.
   - O barulho veio de l. Vamos verificar. No temos nada pra fazer mesmo...
   Enquanto os dois se afastavam, Miguel saltou, agarrando-se no beirai do telhado dos vestirios. Ele sabia que as portas ficavam trancadas  noite e tinha de entrar 
no esconderijo secreto de outra maneira.
   Caminhou sobre o telhado como um gato, afastou duas telhas e espremeu-se por entre as ripas e os sarrafos que sustentavam o telhado. Do lado de dentro, recolocou 
as telhas no lugar.
   Estava sozinho, no esconderijo secreto dos Karas, fracamente iluminado pelo luar que atravessava as poucas telhas de vidro.
   Desceu pelo alapo do quartinho das vassouras e, no escuro, procurou uma das privadas para urinar. Escolheu justamente aquela onde havia uma mensagem malcheirosa 
da qual ele gostaria muito de tomar conhecimento. Mas o vestirio estava escuro, pois no seria possvel acender a luz sem chamar a ateno dos vigias. E a mensagem 
continuou ali, sem que Miguel a percebesse.
   Abriu s um pouquinho uma torneira, para evitar o barulho, e lavou os arranhes que tinha sofrido ao saltar para longe do carro e de Andrade.
   Subiu de novo para o esconderijo e ajeitou-se para dormir.
   A lua veio espiar pelas telhas de vidro. Cansado, Miguel pensou ver o rosto sorridente do Chumbinho naquele disco de prata.
   "Chumbinho... Tudo minha culpa! Se eu no tivesse aceitado a intromisso daquele garoto... Ele  to pequeno... Eu aceitei, s por brincadeira. Agora o coitado 
est nas mos da quadrilha! Pobre Chumbinho... Eu no devia... Mas eu vou salv-lo... Eu vou..."
   Adormeceu, iluminado pela lua.
   
   * * *
   Cal telefonou primeiro para a casa de Miguel e saiu-se muito bem. Era to bom ator que a prpria me do amigo acreditou piamente que estava falando com o filho.
   Depois comeou a ligar para as casas dos meninos desaparecidos que Miguel no pudera visitar. Em cada chamada, fazia uma voz diferente, perguntava tudo o que 
queria e prometia ligar de novo. Foi estranho: quatro dos telefones estavam errados. As famlias procuradas no moravam naqueles endereos.
   Tinha terminado o ltimo telefonema quando a polcia chegou.
   
   * * *
   Suado, com o rosto vermelho, o detetive saltou do carro e correu para a casa.
   -  a polcia. Abram! -ordenou o detetive esmurrando valentemente a porta.
   Um segundo carro, de sirene ligada, estacionou atrs do primeiro, cantando os pneus. Um policial mais jovem correu tambm para a casa. Os olhares dos detetives 
cruzaram-se, e, se olhar fosse metralhadora, os dois estariam mortos na hora.
   Um criado de gordas bochechas e culos de grossas lentes abriu a porta:
   - Pois no? O que desejam?
   - Esta  a casa de um rapaz chamado Cal? - perguntou o policial mais velho.
   - E um outro garoto, chamado Miguel? Est a tambm? - ajuntou o outro.
   O criado parecia um pouco assustado com a ansiedade dos policiais:
   - S... s... sim... S que os dois saram...
   - Para onde foram?
   - No disseram. Mas devem voltar logo, eu acho...
   - Vou esperar no carro.
   - Eu tambm vou.
   O criado fechou a porta. Em vez de estar assustado, ele sorria.
   
9. Decifrando a mensagem
   
   O instinto alerta de Miguel acordou-o com o primeiro rudo vindo do telhado. O lder dos Karas rolou para a escurido do forro e esperou.
   Um sujeito estranho, de culos e gordas bochechas apareceu sob as telhas de vidro, iluminado pelo luar:
   - Miguel, sou eu - anunciou-se Cal, tirando aqueles culos exagerados e os dois chumaos de algodo que lhe aumentavam o volume das bochechas. - A polcia esteve 
l em casa. Tinha o tal detetive gordo que voc falou e um outro, mais simptico. Procuravam por mim e por voc. Tive de engan-los, fingindo-me de criado da minha 
prpria casa. Ah, ah! Os dois trouxas caram direitinho! Logo que deu, escapei e vim pra c.
   Certamente a polcia tinha estado na casa de Miguel, falando com a me do rapazinho, depois do falso telefonema. Por isso tinham corrido to depressa para a casa 
de Cal.
   Agora eram dois Karas "queimados" junto  polcia. Miguel e Cal no podiam mais circular livremente.
   
   * * *
   De manhzinha, quando Magr chegou aos vestirios, uma faxineira gorda resmungava, muito zangada.
   - O que foi, dona Rosa?
   - Essa garotada gr-fina no tem o menor respeito pelo trabalho dos pobres, isso  o que !
   - Mas o que aconteceu?
   - Imagine que porcaria: borraram as paredes do banheiro! Que nojeira! Tudo cheio de riscos e pingos de porcaria. Depois a pobre aqui  que tem de limpar!
   A mulher pegou o seu balde e foi embora, resmungando sempre.
   
   * * *
   Magr ainda estava rindo quando fechou o alapo do esconderijo secreto.
   - Qual  a graa, Magr?
   - Fizeram uma porca duma sujeira nas paredes do banheiro! Dona Rosa estava louca de raiva! Disse que uma poro de pinguinhos e riscos feitos com...
   Crnio deu um pulo:
   - Pinguinhos e riscos? Voc disse pinguinhos e riscos?
   - Dona Rosa  que disse.
   - E aposto que ela j limpou tudo, no ? - lamentou-se Crnio. - Por que algum faria pingos e riscos nas paredes do banheiro? Pingos e riscos, ou traos e pontos. 
Podia ser um cdigo. Morse, talvez.
   Todos se calaram. A nica pessoa que poderia deixar algum cdigo no banheiro do Elite s poderia ser...
   - Chumbinho,  claro! Vai ver ele deixou uma mensagem para os Karas, antes de ser seqestrado! - concluiu Miguel.
   - S temos um jeito de saber - decidiu Crnio. - Magr, v se encontra a dona Rosa. Traga-a para o vestirio. Quero falar com ela no quartinho das vassouras.
   Cal riu com deboche:
   - Ora, que besteira! Voc acha que dona Rosa conhece o cdigo Morse? Voc acha que ela vai se lembrar? Ora, deixe de bobagem
   Crnio admitia tudo, menos que gozassem da sua genialidade:
   - Pode estar certo de que ela se lembra. Pelo menos no inconsciente dela a mensagem est fotografada.
   - E como  que voc vai "revelar" essa fotografia?
   - Hipnose, meu caro! Ou voc j esqueceu esta minha especialidade?
   
   * * *
   Dona Rosa conhecia muito bem o Crnio e simpatizava com o jeito educado do rapazinho. Por isso achou divertido o modo como ele falava:
   - Esse seu trabalho deve dar uma canseira danada, no , dona Rosa?
   - E sim, meu filho.  uma trabalheira!
   - E, de vez em quando, a senhora sente vontade de sentar e esquecer de tudo por uns minutos, no ?
   - ...
   - Ento descanse, dona Rosa. Sente-se nesta cadeira. Suas plpebras esto pesadas e a senhora est calma, tranqila...
   - Estou calma, tranqila...
   - Seus olhos esto se fechando, lentamente... muito lentamente... a senhora est com sono, muito sono... Agora a senhora j est adormecida. Est dormindo e est 
tranqila...
   O corpo gordo da faxineira estava largado na cadeira. Mole como um saco de batatas.
   - A senhora s ouve a minha voz. Somente a minha voz. Vamos voltar no tempo para esta manh. A senhora est entrando no vestirio...
   - No vestirio... que porcaria! -murmurou dona Rosa em seu transe hipntico.
   - Isso. Vamos falar da porcaria. A senhora est vendo a porcaria?
   - Estou vendo. Esses meninos no tm considerao com os pobres...
   - Conte para mim, dona Rosa. Como so esses riscos e esses pingos.
   - Em cima tem um risco, um pingo, outro risco.
   -  Morse, mesmo. O que ela disse  um K! - conferiu Magr.
   - E depois, dona Rosa?
   - Tem um risco, outro pingo, outro pingo, outro pingo...
   - B! - traduziu Cal.
   - Embaixo tem um risco, um pingo, um risco, um pingo...
   - C de Chumbinho! - concluiu Miguel.
   - Tem mais, dona Rosa?
   - Mais nada... sujeira... porcaria... meninos porcos... Crnio aproximou-se da faxineira:
   - Dona Rosa, eu vou contar at trs. Quando eu terminar de contar, a senhora acordar e ter esquecido tudo o que aconteceu agora. Um, dois, trs! Acorde, dona 
Rosa!
   Os olhos da gorda senhora abriram-se de repente e ela se levantou apressada:
   - Nossa! Tenho muito trabalho ainda. Com licena, meninos, mas eu tenho de...
   E foi-se embora, sem se lembrar de nadinha daquela estranha sesso de hipnose.
   
   * * *
   - K-B-C: Karas-Bino-Chumbinho - decifrou Miguel. - E isso! Chumbinho tentou nos avisar que ele e Bino caram na armadilha dos bandidos!
   - Cal! - comandou Crnio. - Verifique se Bino veio  escola hoje!
   
   * * *
   Era isso. Por mais que procurassem, no foi possvel encontrar o Bino tambm.
   Miguel sentiu-se duplamente culpado. Ao mandar Chumbinho "investigar" o pobre do Bino, ele tinha envolvido tambm o prprio Bino na histria.
   Pobre Bino! Pobre Chumbinho! E agora?
   
   

  10. Meninos obedientes
   
   A porta traseira da perua foi aberta e a luz forte da tarde penetrou no interior do veculo, cegando Chumbinho por um instante. Quando sua vista acostumou-se 
 claridade, o menino viu-se no ptio interno de uma espcie de pavilho bem grande, parecendo uma fbrica.
   - Saia! - ordenou uma voz.
   Era o mesmo grandalho animalesco que o havia trazido at ali. Outros dois gorilas do mesmo estilo aproximaram-se. Um deles colocou um bracelete de esparadrapo 
no pulso esquerdo do menino. No bracelete estava escrito D. 0.20.
   Chumbinho estranhou aquelas iniciais D.O., mas sorriu por dentro ao ler o nmero 20: sua hiptese se confirmava. Se haviam sido seqestrados trs estudantes de 
nove diferentes colgios, mais o Bronca e mais ele, Chumbinho, seu nmero deveria ser 29. Ah!... mas agora ele estava entendendo por que tinha recebido o bracelete 
com o nmero 20!... Eram s vinte os seqestrados. Os outros nove que faltavam, no faltavam.
   E os outros Karas? Teria algum deles encontrado a mensagem em cdigo que ele deixara no banheiro? Teriam entendido o e Chumbinho tentara dizer com tanta pressa?
   - Voc agora  o Vinte - falou um dos grandalhes dirigindo-se a ele. - Sempre que chamarem pelo Vinte, voc atende. Certo?
   - Sim, senhor.
   - Venha comigo.
   Chumbinho seguiu o grandalho documente, fazendo ainda sua carinha de estpido. At ali, a representao ia funcionando direito. Mas at quando funcionaria? E 
se aqueles brutamontes descobrissem a farsa que o menino estava representando? O que fariam com ele?
   O menino seguiu o grandalho, entrando no pavilho da tal fbrica e atravessando um corredor comprido. Tudo estava muito limpo e arrumado. Parecia at um hospital.
   Chegaram a uma sala ampla, cheia de arquivos. Chumbinho viu-se frente a uma secretria que nem olhou para o seu lado. O grandalho entregou  mulher um papel 
e ela ps-se a datilografar furiosamente uma ficha. Nada perguntou a Chumbinho, mas, por via das dvidas, o menino continuou imvel e apalermado.
   Por uma porta lateral entraram em um vestirio onde havia prateleiras cheias de roupas. O brutamontes estendeu-lhe um macaco azul, sapatos, meias, cueca e mandou 
que ele se trocasse.
   Chumbinho obedeceu  ordem. O macaco e os sapatos serviam direitinho!
   "Que gente mais organizada!", pensou o menino. "J sabiam at o nmero que eu calo e que eu visto!"
   No peito e nas costas do macaco, estava bordado o nmero 20 depois das letras D. O.
   "Outra vez o D.O. ... O que ser isso?", cismou o garoto, muito mais curioso e excitado com o que estava conseguindo descobrir do que assustado, como deveria 
ficar qualquer garotinho da idade dele. Mas ele agora era um Kara, e um Kara no tinha o direito de ter medo.
   
   * * *
   Vestido e fichado, o nmero 20 foi levado at uma sala em cuja porta estava escrito: D.O. - Testes.
   A sala era muito grande. Um salo, como o de uma academia de ginstica. L estavam outros dezenove jovens, todos numerados e com as letras D.O. s costas.
   Estava tambm o Bronca, com o nmero 19 bordado no macaco.
   "O Bronca! Encontrei o Bronca!", pensou Chumbinho, animado com os progressos na investigao, mas sem saber para que serviriam aquelas descobertas, com ele preso, 
numerado e fortemente vigiado, igualzinho aos outros.
   Chumbinho olhou fixamente para o colega do Elite, mas Bronca no deu o menor sinal de reconhec-lo. Parecia um idiota, e no estava fingindo como Chumbinho. Bronca 
estava idiotizado mesmo, como idiotizados estavam todos os outros rapazes e moas de macaco azul numerado.
   Um garoto, com o nmero 6, estava cado no cho, no meio do salo de testes. Estava imvel, com o rosto voltado para o cho.
   Um homem de avental branco dirigiu-se a uma espcie de televisor que havia no fundo do salo. Apertou algumas teclas e o vdeo iluminou-se, mostrando a silhueta 
de algum.
   - Resultado do teste de eficincia 141/06, Doutor Q.I. - informou o homem de avental branco, falando para a silhueta.
   - Pode relatar - ordenou uma voz metlica, vinda do vdeo, certamente deformada por alguma espcie de filtro de som.
   Chumbinho arrepiou-se:
   "A voz deformada, a figura em silhueta... Este deve ser o chefo da coisa toda. E  claro que no quer ser reconhecido!" O homem do avental branco comeou:
   - Primeira concluso: a Droga da Obedincia... 
   "Droga da Obedincia!", espantou-se Chumbinho. "Ento  isso que significam as iniciais D.O.T?"
   - ... a Droga da Obedincia aumenta o desempenho fsico, sem limites, Doutor Q.I. Precisamos estabelecer, portanto, quais os nveis de esforo suportveis pelas 
cobaias. A cobaia nmero 6 repetiu a ordem sem demonstrar cansao nem desejo de parar.
   - At quando? - perguntou a voz metlica vinda do vdeo.
   -At o limite da ruptura fsica, Doutor Q.I. Perdemos a cobaia nmero 6.
   - Muito bem. Procedam com a cobaia morta do jeito que planejamos.
   - Ser feito, Doutor Q.I.
   - De que modo foi usada a droga?
   - Em comprimidos, Doutor Q.I. Mas o efeito da Droga da Obedincia  o mesmo, qualquer que seja a forma de us-la. J experimentamos em p, em comprimidos, em 
lquido, injetada, cheirada, aspirada e at fumada, na forma de cigarros. E os resultados foram sempre bons.
   - timo. Quero a repetio do teste 141 com a cobaia nmero 11. A ordem deve ser suspensa antes de completar-se o perodo de tempo em que perdemos a nmero 6. 
Precisamos saber at onde chega a eficincia da Droga da Obedincia sem a perda da cobaia. Quero novo relatrio amanh, bem cedo.
   A tela apagou-se fazendo desaparecer a sinistra silhueta, que falava da morte de um menino como se falasse de nmeros e fraes.
   Horror! Chumbinho mal podia acreditar no que estava presenciando. Temeu at que sua expresso denunciasse o que lhe passava pelo pensamento. Aquela gente usava 
vidas humanas como cobaias e ningum parecia preocupado com a morte estpida de um garoto que, talvez h poucos dias, era um alegre estudante de algum colgio de 
So Paulo!
    sua volta, todas as outras cobaias humanas estavam impassveis, como se nada estivesse acontecendo.
   Chumbinho viu um garoto com o nmero 11 ser chamado para o centro da sala.
   De repente, tudo aquilo misturou-se em sua mente, sentiu-se enjoar, entontecer... Chumbinho desmaiou.
   
   ***
   - S pode ter sido isso, Doutor Q.I. A cobaia nmero 20 no foi alimentada depois que foi trazida para c. Por isso desmaiou. J o alimentamos com soro e o eletrocardiograma 
dele est normal. Deve acordar em poucos minutos.
   Aquela voz entrou pelos ouvidos do Chumbinho como num sonho. O menino percebeu que estava deitado, e fez um esforo para no abrir os olhos at colocar suas idias 
em ordem.
   Diabo! Ele tinha desmaiado e quase punha tudo a perder. Por sorte a voz que ouvira tinha encontrado uma desculpa perfeita para o desmaio. Por enquanto eles desconheciam 
que Chumbinho no estava sob o efeito da tal Droga da Obedincia.
   J recomposto, o menino abriu os olhos. Estava em uma enfermaria, deitado e com uma agulha em sua veia do brao esquerdo. A agulha estava ligada a um canudinho 
que trazia o soro alimentar de um frasco dependurado ao seu lado.
   O homem que falava, provavelmente um mdico, olhava para a tela de um televisor igual ao que o menino vira na sala de testes. Da tela vinha a mesma voz metlica:
   - Idiotas! Vocs sabem muito bem que eu no admito falhas. As cobaias devem ser alimentadas regularmente, conforme o planejado. Sob o efeito da Droga da Obedincia, 
nenhuma cobaia manifesta desejo algum. Se no a alimentarem, a cobaia pode sofrer danos. Que isso no se repita!
   - Desculpe, Doutor Q.I....
   A silhueta apagou-se da tela antes que o mdico pudesse completar as desculpas.
   
   ***
   Chumbinho foi levado a um refeitrio onde j se encontravam as outras dezoito cobaias. O mdico o havia examinado e devia ter concludo que tudo ia bem com a 
cobaia nmero 20. Assim, o menino foi normalmente reintegrado ao grupo.
   Comeu quando recebeu a ordem para tanto e procurou fazer tudo do jeito que faziam as outras cobaias humanas.
   Chumbinho olhava para a cadeira vazia onde provavelmente costumava sentar-se o pobre menino nmero 6, quando um funcionrio colocou alguma coisa  sua frente.
   Era um vidrinho com outra dose da Droga da Obedincia.
   "Quer dizer que o efeito da droga  passageiro?", pensou Chumbinho. "Vai ver todas as cobaias tm de tomar um reforo da droga de tempos em tempos. Era quase 
meio-dia quando eu fingi tomar a primeira dose. Agora deve ser mais ou menos oito da noite. Ento o efeito dura cerca de oito horas... Quer dizer que tenho oito 
horas para agir..."
   Uma idia comeou a crescer na cabea do Chumbinho, enquanto ele fingia tomar a droga e a escondia dentro do macaco azul.
   "Todos pensam que eu estou idiotizado como os outros. Por isso ningum vai ficar me vigiando. timo! Agora  s esperar que as luzes se apaguem. Tenho de saber 
mais. Preciso conhecer melhor este lugar maldito!"
   Esperou um pouco e, quando todas as cobaias adormeceram, esgueirou-se silenciosamente para fora da cama.
   
   
   
11. Uma droga mais que perfeita
   
   Sozinho no laboratrio da grande indstria multinacional de produtos farmacuticos Pain Control, o bioqumico Mrius Casprides ajeitou os culos e conferiu mais 
uma vez suas notas. Tinha passado a noite inteira submetendo os coelhos aos mais diferentes testes, e agora no tinha tempo para sentir sono.
   Incrvel, mas parecia que as suas piores suspeitas se confirmavam.
   Os coelhos estavam imveis na gaiola, em frente s mais gostosas cenouras e folhas de alface. Mesmo depois de um dia inteiro sem alimento, os coelhos no se dirigiam 
 comida sem uma ordem. Assim tinha sido com os porquinhos-da-ndia, com os ces, com os gatos e com os macacos.
   "Sim, sim, sim... a droga funciona bem. Alis, funciona completamente bem, alis funciona completamente...", pensava o bioqumico Casprides, ajeitando os culos 
a toda hora. "Sim, sim, sim... Isso  mau, muito mau... Preciso avisar o Doutor Q.I....  urgente, muito urgente... sim, sim, sim, o Doutor Q.I. precisa saber disso!"
   Levantou-se apressadamente da bancada de trabalho, deixando  a portinhola da gaiola dos coelhos. Mas essa distraco de Mrius Casprides no traria problemas. 
Sem uma ordem expressa, nenhum coelho ousaria sair da gaiola.
   J na porta, o bioqumico Casprides parou para mais uma olhada no laboratrio. De todas as gaiolas, lotadas com os mais diferentes animais, no saa nenhum som, 
no se percebia nenhum movimento, como se todos os bichos estivessem mortos. Mas eles estavam vivos, bem vivos, com os olhos parados, olhando para nada...
   
   * * *
   Quando parou em frente ao vdeo do intercomunicador mais prximo do laboratrio, o bioqumico Mrius Casprides no reparou na pequena sombra de macaco azul 
que se ocultava a um canto.
   
   * * *
   O bioqumico sabia que no era difcil falar com o Doutor Q.I. S era difcil ver o Doutor Q.I. Para falar com ele, bastava procurar qualquer dos intercomunicadores 
que se espalhavam por toda a indstria de medicamentos Pain Control. Se o Doutor Q.I. estivesse em sua sala, a chamada seria atendida na hora.
   Ningum sabia em que parte da grande indstria ficava a sala do Doutor Q.I. e tampouco havia algum que soubesse qual era o verdadeiro nome do poderoso dirigente 
da Pain Control, que no mostrava o rosto nem no vdeo do intercomunicador. Nem a voz dele era conhecida. Tudo o que os funcionrios da Pain Control conheciam do 
Doutor Q.I. era uma silhueta e uma voz modificada por um filtro de som.
   O vdeo iluminou-se e a silhueta apareceu ao mesmo tempo em que se ouvia a tal voz metlica.
   - Meu caro Mrius Casprides! Que prazer inesperado! A que devo a surpresa de sua chamada?
   - Sim, sim, sim... -gaguejou Casprides. -Bom dia, Doutor Q.I....  sobre a droga.  que eu descobri...
   - A droga! A maravilhosa Droga da Obedincia! - interrompeu a voz do Doutor Q.I. - A fantstica droga que voc descobriu, Mrius Casprides!
    - Sim, sim, sim... mas  que eu continuei com os testes e...
   - Algum problema, Casprides? Seus testes demonstraram algum problema com a nossa maravilhosa Droga da Obedincia?
   - Sim, sim, sim... no, no, no! Sim e no...
   L, na sala que ningum sabia onde ficava, a imagem trmula do bioqumico, no vdeo do aparelho, deve ter irritado o poderoso chefe da Pain Control. A voz agora 
era fria, era dura.
   - Ou sim ou no, meu caro Casprides. Ou voc descobriu um problema com a droga, ou no descobriu.
   - Sim, sim, sim, eu descobri. A droga funciona bem. Bem at demais. Muito demais, exageradamente demais. As cobaias se acalmaram e obedecem como espervamos, 
mas...
   - Mas o qu?
   O nervosismo do bioqumico Mrius Casprides crescia cada vez mais ao falar para uma tela de vdeo que no mostrava o rosto do interlocutor. Era como falar para 
as paredes de uma sala vazia. Uma sala que tinha voz, que tinha o poder absoluto.
   - Com a droga, as cobaias obedecem totalmente, Doutor Q.I. Mas parece que perdem a vontade prpria, a capacidade de iniciativa. Sim, sim, sim! Ficam incapazes 
de fazer qualquer coisa voluntariamente. Ficam inertes,  espera de alguma ordem, como se fossem mquinas que s funcionam quando so ligadas e s param de funcionar 
quando algum as desliga!
   Depois de um breve silncio, a voz do Doutor Q.I. pareceu aliviada:
   - Ufa, ainda bem! Por um momento tive medo de que houvesse algum problema com a Droga da Obedincia!
   - Sim, sim, sim, Doutor Q.I., parece que o senhor no entendeu direito. Existe um problema, um problema muito grande. Como o senhor sabe, h anos eu venho pesquisando 
uma droga capaz de combater os casos de loucura mais rebeldes, mais furiosos...
   - E com o financiamento, com o patrocnio da Pain Control para suas pesquisas, seu sucesso foi absoluto, Casprides! - cortou a voz do Doutor Q.I. - Com a Droga 
da Obedincia, haver grandes progressos no tratamento dos louros furiosos
   - Sim, sim, sim, desculpe, Doutor Q.I., mas parece que eu no estou sendo claro. O que eu quero dizer  que a droga tem um efeito devastador sobre a personalidade 
das cobaias. Parece que a vontade se anula!  claro que eu pretendo agora fazer alguns testes com outros animais maiores. No entanto...
   - Outros animais maiores, Casprides? Que tipo de animais?
   - Estou pensando nos grandes orangotangos, em cavalos, touros e at feras, como ursos, lees...
   - E seres humanos? - perguntou o Doutor Q.I. O bioqumico Mrius Casprides assustou-se:
   - Como? Seres humanos? Gente? No, no, no, Doutor Q.I.  muito cedo para testar a Droga da Obedincia em seres humanos. Ainda mais agora que eu...
   - Pois voc est atrasado, meu caro Casprides. J dei a ordem, e a Droga da Obedincia est sendo aplicada em quem deve ser. Nada de ratos, camundongos ou papagaios. 
Gente, Casprides, gente!
   - Gente?! O senhor j mandou testar a droga nos loucos?
   - Loucos? Loucos coisa nenhuma! Essa droga maravilhosa est sendo testada nos jovens mais saudveis que pudemos encontrar!
   Casprides empalideceu:
   - Gente? E gente s? Mas esta  uma droga perigosa. S poderia ser aplicada com ordem mdica. E a tica probe ao mdico aplicar medicamentos em um corpo so!
   - tica mdica, Casprides? - riu-se o Doutor Q.I. - A nica tica que me importa  a da Pain Control!
   - No, no, no! Isso  um absurdo! Eu no vou permitir...
   - Permitir? Ora, Casprides, quem  voc para permitir ou proibir qualquer coisa aqui na Pain Control?
   O bioqumico Mrius Casprides agarrou-se ao intercomunicador, gritando desesperado:
   - No, no, no! Por favor! No pode fazer isso! Com gente, no! No desligue! No!!
   Suavemente o vdeo do intercomunicador apagou-se.
   
   

  12. Assalto ao banco!
   
   Atravs das vidraas do laboratrio de bioqumica dava para avistar todo o ptio interno da Pain Control. E foi por ali que Mrius Casprides viu caminhando rapidamente, 
em direo ao laboratrio, os trs horrveis encarregados da segurana da indstria. Casprides nunca soube como se chamavam, mas, para si mesmo, costumava pensar 
neles como o Coisa, o Animal e o Fera, pois, pelo jeito, aqueles homens no eram de brincadeira.
   E, pelo modo como se aproximavam, iluminados pelo dia que chegava, o Coisa, o Animal e o Fera no estavam para brincadeiras.
   Cansado pela noite sem dormir, atordoado pela conversa com o Doutor Q.I., Mrius Casprides viu uma luz vermelha acender-se dentro de sua cabea: perigo, perigo, 
perigo!
   Sim, sim, sim. Ele havia gritado com o Doutor Q.I., ele havia se colocado contra o Doutor Q.I. Pelo tom de voz daquele chefe sem nome e sem rosto, havia perigo 
no ar. A humanidade estava em perigo com o uso da Droga da Obedincia que ele, o bioqumico Mrius Casprides, havia criado. E ele, o bioqumico Mrius Casprides, 
estava agora em perigo por ter-se oposto ao uso da droga aue ele mesmo criara.
   Tentou raciocinar. Ele s conhecia os trs capangas de vista. Nem sabia o nome deles. Na certa, os trs tambm no o conheciam direito e poderiam muito bem confundi-lo 
com qualquer um dos inmeros tcnicos que trabalhavam na Pain Control.
   Foi o tempo de decidir-se, guardar os culos no bolso, pegar uma vassoura esquecida a um canto, e os trs brutamontes abriram a porta violentamente.
   - Ei, voc a! - berrou o Animal. - Onde est o tal Mrio Caspa-no-sei-de-qu?
   - Hum,  comigo? - perguntou Casprides, fazendo-se de desentendido e fingindo que varria o cho.
   -  claro que  com voc, seu idiota!
   - Sim, sim, sim, desculpe... Acho que ele est l, no fim do corredor, no laboratrio de engenharia gentica. Trabalhou a noite toda, coitado...
   Os trs correram para onde apontava o falso faxineiro e Mrius Casprides saiu rapidamente pela porta por onde eles tinham entrado.
   
   * * *
   Nem os perseguidores nem o perseguido notaram o pequeno vulto de macaco azul e curativo no dedo que se espremia contra as paredes, escondendo-se nas sombras.
   
   ***
   No ptio, iluminado pela luz da manh, o bioqumico Casprides teve certeza de que no ia ser fcil escapar do prdio da Pain Control. Certamente todas as portarias 
tinham sido alertadas pelo Doutor Q.I. e era bem possvel que algum dos porteiros fosse menos burro que os trs capangas.
   Naquela hora, pela portaria de entrada, chegavam os operrios do turno da manh e, pela outra, ao lado, saa o pessoal do turno da noite.
   Casprides misturou-se aos que saam, embora soubesse que seria facilmente detido na hora de identificar-se. Misturado no meio daqueles operrios exaustos, o 
bioqumico passou, sem que ningum percebesse, para o grupo dos que entravam.
   Virou-se e comeou a andar para trs.
   Quem olhasse para aqueles grupos de operrios veria todos virados de frente para a fbrica como se chegassem, e nem suspeitaria de que um deles estava andando 
para trs como um caranguejo.
   A idia deu certo. Em pouco tempo, Casprides estava na rua. Enfiou-se no primeiro nibus que passava e deu uma ltima olhada para o prdio da Pain Control.
   Na calada, o Coisa, o Animal e o Fera apontavam furiosos para o nibus, aos gritos.
   
   ***
   O nibus chegava ao centro da cidade quando um automvel negro bloqueou a rua. De dentro dele, trs homens corpulentos saltaram ainda a tempo de ver o pobre bioqumico 
que escapava por uma das janelas do nibus e corria, para misturar-se  multido.
   Para onde ir? Como fugir? Como escapar da poderosa organizao comandada pelo sinistro Doutor Q.I.?
   O Coisa, o Animal e o Fera viram-se cercados pela multido de paulistanos que chegava para o trabalho naquela manh. O tal Mrio das Caspas no poderia escapar. 
Perseguiram o bioqumico pela rua da Quitanda, abrindo caminho com brutalidade.
   Quando chegaram na 15 de Novembro, estava acontecendo uma confuso dos diabos. Correria pra todo lado, parecia at...
   - Um assalto! -gritou algum. -Esto assaltando o banco!
   - O banco? Que banco?
   - Aquele l!
   - So muitos?
   - No sei, mas parece que prenderam um deles. Veja!
   De dentro do banco vinha uma balbrdia danada. Os guardas de segurana do banco tentavam dominar o tal assaltante, que se debatia e gritava:
   - Podem me prender! Ah, ah, ah, no h cadeia que me segure! Eu sou o perigoso Z da Silva! Procurado no pas inteiro! Sou Z da Silva!
   Alertados pelo alarma do banco, vrios carros da polcia chegaram com as sirenes abertas.
   No primeiro deles, o assaltante Z da Silva foi levado aos pescoes.
   No ltimo, trs grandalhes foram presos tambm, pois haviam sido encontrados com armas na mo, correndo em plena rua 15 de Novembro.
   
   ***
   
   Naquela manh, num matagal em Taboo da Serra, a molecada encontrou o cadver de um menino, meio mergulhado num crrego imundo.
   O cadver estava picado de balas.
   
13. Infeliz reaparecimento
   
   Em frente  delegacia, a rua estava completamente atravancada pelos veculos da televiso, das rdios e dos jornais de So Paulo, alm da multido de curiosos 
que sempre aparece nessas horas.
   - Acharam! Enfim encontraram!
   - Quem?
   - Um dos meninos desaparecidos. O Ricardinho Medeiros Trememb!
   - Encontraram? Que bom!
   - Bom? Bom coisa nenhuma! O menino est morto!
   A sala da delegacia, cercada por sofs de couro j bem gasto, parecia minscula para tanta gente. Depois de muita insistncia, os jornalistas tinham conseguido 
uma entrevista coletiva.
   Envolvido e empurrado pelos reprteres, o detetive Andrade estava meio cego pelos refletores da televiso e pelos flashes das mquinas fotogrficas. Os reprteres 
enfiavam-lhe microfones junto ao rosto, todos esperando alguma grande revelao:
   - O Ricardinho estava com tiros pelo corpo inteiro, no ?
   - Ouvimos dizer que os pulsos do menino estavam amarrados com arame,  verdade?
   - Isso no est parecendo uma execuo feita pelo Esquadro da Morte, detetive Andrade?
   - O senhor acha que h gente da prpria polcia envolvida nesses crimes?
   Andrade suava como nunca e se sentia sufocado por aquele abafamento:
   - No! Acho que isto no tem nenhuma ligao com o Esquadro da Morte!
   - Ser que o menino pertencia a alguma quadrilha?
   - A polcia acha que os outros desaparecidos vo ser assassinados tambm?
   - Nada disso! Estamos trabalhando dia e noite e logo vamos encontrar todos eles...
   Do fundo da sala veio a pergunta de um reprter recm-chegado:
   -  verdade que desapareceram mais dois garotos do Colgio Elite?
   Aquela era uma novidade, e uma novidade capaz de aumentar ainda mais a fervura daquela sala:
   - Como?! 
   - Mais dois?
   - Quem?
   - O Miguel, o presidente do Grmio do Elite. E mais um, que chamam de Cal!
   - O que a polcia tem a informar sobre isso, detetive Andrade?
   - Calma, calma! Estamos investigando. Vai ver os dois garotos s saram para uma farrinha e logo...
   - Para uma farrinha?! - interrogou algum. - Mas ns ouvimos dizer que havia um desconhecido na casa do Cal. Algum que se fazia passar por um criado.
   -  isso mesmo! -confirmou outro. -Dizem que era um sujeito de culos, de bochechas grandes...
   Andrade no sabia o que responder. No sabia mais o que fazer para acalmar aquele tumulto.
   - Estamos investigando, estamos investigando...
   
   * * *
   Quando Andrade finalmente conseguiu livrar-se da imprensa, viu-se novamente envolvido por outra multido. Eram os pais e os advogados dos estudantes desaparecidos. 
A morte de Ricardinho levara aquelas pessoas ao desespero. Cada um imaginava que o seu filho seria o prximo a aparecer baleado no meio de algum monte de lixo. Todos 
exigiam providncias da polcia e Andrade escapou por pouco de ser agredido por uma das mes mais nervosas.
   Quando conseguiu fechar uma porta atrs de si e deixar toda aquela confuso do outro lado, Andrade estava exausto como um jogador de futebol depois de uma final 
de campeonato.
    sua frente, porm, o detetive Rubens parecia pronto para ir a um casamento. Seu terno permanecia impecvel e seu cabelo no tinha um fio fora do lugar.
   - Como , Andrade? Tudo bem com a entrevista  imprensa?
   O palavro que ia comear a ser dito por Andrade foi interrompido pela entrada do mdico legista:
   - J terminei a autpsia, detetive Andrade.
   Os dois detetives voltaram-se ansiosos para o mdico:
   - Qual a concluso, doutor?
   - A que horas ocorreu a morte? O mdico comeou a falar:
   - A vtima morreu ontem, entre 16 e 18 horas, mais ou menos...
   - Quer dizer que balearam o garoto ontem  noite?
   - No, eu no disse isso - desmentiu o mdico. - Ele morreu ontem  tarde, mas...
   - Caramba! - exclamou Andrade. - Quer dizer que, baleado daquele jeito, o Ricardinho ainda demorou a morrer?
   - Eu tambm no disse isso.
   A pacincia de Andrade j tinha acabado, e ele berrou com o mdico do jeito que gostaria de ter gritado com os reprteres:
   - E o que  que o senhor disse, exatamente, doutor? J estou cansado desse jogo de adivinhaes!
   - Eu disse que o menino morreu  tarde, mas no morreu por causa dos tiros. Ele foi baleado depois de morto!
   - Barbaridade! - Andrade deixou-se cair numa cadeira. Aquela era demais! - Os malditos esto brincando com a gente.
   Esto fazendo a gente perder tempo. Quiseram fazer crer que esta era uma execuo do Esquadro da Morte. E todo mundo sabe que o Esquadro da Morte  coisa de 
policiais corruptos que matam gente por dinheiro. Esses bandidos querem jogar a opinio pblica contra a polcia!
   - E parece que j conseguiram, no , Andrade? Andrade no respondeu  provocao do detetive Rubens.
   A prioridade era outra:
   - E qual foi a causa mortis, doutor? O mdico parecia confuso:
   - O senhor no vai acreditar, Andrade. O garoto morreu em conseqncia de um esforo fsico exagerado. O corao dele no agentou!
   - Como?!
   - O Ricardinho morreu de exausto, detetive Andrade!
   O barulho das chaves sendo manipuladas traduzia o nervosismo de todos eles.
   

  14. Quem ser o oferecedor?
   
   No esconderijo secreto dos Karas, com a gaitinha de Crnio fazendo fundo musical, Magr acabava de relatar a Miguel e a Cal os acontecimentos envolvendo o aparecimento 
do cadver do menino baleado:
   - A televiso e o rdio no falam de outra coisa, Karas.
   - Quer dizer que esto pensando que eu e Miguel tambm fomos seqestrados? - perguntou Cal, que estava achando muito divertida aquela situao.
   - Vai ver, o diabo do Andrade estava na minha casa, procurando por mim, quando voc telefonou para l e imitou a minha voz, Cal - concluiu Miguel. - Mas pode 
estar certo de que o Andrade no acha que eu tambm tenha sido seqestrado. Ele sabe que eu estou em algum lugar, escondido. E sabe que eu represento um risco para 
o esquema todo!
   - Belo risco! - gozou Cal. - Ns estamos aqui, parados, escondidos da polcia e dos bandidos, enquanto os estudantes vo aparecendo, um a um, mortos como cachorros 
loucos!
   A gaitinha parou de tocar:
   - No!
   Todos voltaram-se para o gnio da turma:
   - No o qu, Crnio?
   - Os estudantes no vo aparecer baleados. No necessariamente.
   - Por que voc diz isso?
   -  muito simples, Karas. Vocs acham que esses bandidos se dariam ao trabalho de recolher um certo nmero de estudantes especiais, aplicar-lhes uma droga nova, 
para simplesmente ench-los de chumbo?
   - Sei l... - respondeu Magr. - Vai ver so uma espcie de sdicos...
   -  claro que so sdicos, Magr. Mas obedecem a algum tipo de inteligncia macabra, que tem alguma finalidade terrvel. Os estudantes esto sendo usados de uma 
forma cientfica. Louca, mas cientfica.
   - E o Ricardinho?
   - S pode ter sido um acidente de trabalho. Se eu estiver certo, essa morte confirma a minha teoria de que os estudantes esto sendo usados como cobaias para...
   Magr saltou como um gato. Estava repentinamente revoltada, louca por uma ao mais efetiva. Com o rosto quase colado ao rosto do amigo, a menina explodiu:
   - Chega de conversa mole, Crnio! H trs dias ns andamos por a, fazendo perguntas feito trouxas, enquanto os bandidos seqestram o Chumbinho, seqestram o 
Bino e ainda nos oferecem o cadver de um garotinho! E voc, a, falando em teorias como um besta!
   A surpresa de Crnio foi imensa. O lbio do garoto tremeu, os olhos piscaram, ia chorar:
   - Ma... Magr... eu...
   A primeira lgrima foi de Magr. A meio palmo do rosto de Crnio. Os dois se calaram e agarraram-se num longo abrao, um abrao desesperado...
   - Desculpe, Crnio... Eu no queria falar assim...
   - T bem, Magr. No faz mal...
   Miguel levantou-se e abraou os dois. Cal veio em seguida e os quatro ficaram ali, abraados, em silncio, com os corpos colados, procurando unir suas energias, 
aumentar suas esperanas.
   Unidos, os Karas eram invencveis.
   
   * * *
   Reanalisaram e rediscutiram tudo o que j tinham descoberto at quele momento. Era preciso encontrar algum ponto comum a todos os desaparecimentos.
   - O oferecedor no pode ser nenhum dos professores - informou Crnio. - Verifiquei com todos os grmios estudantis das nove escolas que tiveram estudantes seqestrados. 
Comparei as listas de professores com a lista do pessoal do Elite. A maioria  de professores exclusivos de cada escola. H trs que do aula em duas dessas escolas 
e apenas um que d aula em trs delas.
   Chegou a vez de Cal:
   - Eu tinha de investigar nove casas de meninos seqestrados. Mas Miguel teve de fugir do Andrade e me passou mais seis deles. Falei com alguns pessoalmente e 
com outros por telefone. S que foi tudo uma decepo. O pessoal s se lamenta e chora. Eles tm muito pouco a informar. Quatro deles eu no consegui encontrar.
   - Eu tambm no encontrei quatro dos meus nove - informou Magr. - Com os outros foi bem do jeitinho que voc contou, Cal. S choradeira. Esses pais de hoje 
em dia conhecem muito pouco os prprios filhos...
   - Como foi com esses pais que vocs no encontraram? - perguntou Crnio. - Eles no estavam em casa?
   - No. Foi estranho... - explicou Magr. - Os endereos no conferiam. Nunca havia morado naqueles endereos qualquer famlia de estudante desaparecido...
   - Gozado! - comentou Cal. - Com os quatro que eu no encontrei foi a mesma coisa...
   Os olhos do Crnio se arregalaram:
   - Espere a! Quer dizer que no foi possvel localizar oito famlias de garotos raptados?
   - Nove! - corrigiu Miguel. - Eu s tive tempo de visitar dois da minha lista. O endereo do terceiro tambm estava errado.
   Crnio estava excitadssimo:
   - E quem eram esses nove? Vocs j verificaram? Todos garotos? Ou havia garotos e garotas? Todos de escolas diferentes? Ou mais de um de uma mesma escola? Deixa 
ver a lista!
   Magr comeou a compreender:
   - Acho que j percebi aonde voc quer chegar, Crnio. Verifique a lista. Eu vou dar um telefonema!
   Enquanto a menina sumia pelo alapo, os trs Karas examinaram a lista de desaparecidos. De cada colgio, uma famlia de um dos meninos desaparecidos no pudera 
ser localizada.
   - Que estranho...
   - Estranho? Estranho nada. Claro demais! -declarou Crnio. - Como eu pude ser to burro?
   Nesse momento, Magr reapareceu. Com o rosto vermelho e uma expresso de assombro no olhar, a menina anunciou:
   - Acabei de telefonar pra casa do Bino. Usei o nmero que est na ficha do Elite. Pois bem: l nunca morou um garoto chamado Bino!
   Crnio deu um tapa na testa:
   -  isso! Eu estava errado desde o incio. A amostra que est sendo seqestrada de cada colgio  de dois, e no de trs estudantes. O terceiro  um falso aluno, 
que se matricula em uma escola por semana, fornece um endereo falso e provavelmente diz que vai trazer depois os documentos da escola anterior. Oferece a droga 
para dois colegas e depois desaparece!
   - Quer dizer que...
   - Que o oferecedor  o Bino!
   
   ***
   Os Karas tinham descoberto o detalhe comum a todos os desaparecimentos. O mesmo falso estudante, o mesmo pequeno patife que, sob diferentes nomes, tinha penetrado 
em dez colgios de So Paulo e tinha feito desaparecer vinte meninos e meninas, sob o efeito de uma droga maldita que deixava todos eles feito idiotas, sem iniciativa 
nem inteligncia.
   A mensagem fedorenta do Chumbinho para os Karas no queria dizer que ele e Bino tinham cado nas mos da quadrilha. Chumbinho tinha avisado aos Karas que Bino 
era o oferecedor!
   J era um comeo. Os Karas tinham levantado uma ponta do vu estendido pela mente maligna que comandava aquela organizao.
   - No h qualquer motivo para acreditar que eles vo parar no vigsimo estudante, que  o Chumbinho - raciocinou Miguel. - Se eles precisam de cobaias humanas, 
eles vo continuar procurando.
   - Talvez, neste momento mesmo - previu Cal -, o demnio do Bino esteja, com outro nome, em algum outro colgio, preparando a sua nova vtima!
   - O problema  saber qual vai ser o prximo colgio a ser atacado - lembrou Magr.
   Crnio pediu um mapa da cidade de So Paulo e uma lista dos principais colgios. Magr foi buscar e, em cinco minutos, os quatro Karas examinavam o mapa, aberto 
sobre o forro do vestirio e sob a luz do meio-dia, que entrava pelas telhas de vidro.
   - Vejam - mostrou Crnio. - Eles j atacaram colgios nos Jardins, no Morumbi, em Moema...
   Espetou um alfinete de cabea vermelha no local do mapa onde se localizava cada colgio que j havia sido "visitado" pelo oferecedor. Com alfinetes de cabea 
branca, Crnio assinalou outros colgios que poderiam ser os prximos alvos.
   - Aqui, aqui, aqui e aqui - apontou Crnio. - Um desses quatro colgios deve estar na mira do falso Bino. Se eu traar uma circunferncia assim, abrangendo toda 
esta parte, faltam somente estes quatro colgios importantes para a quadrilha atacar.
   O raciocnio parecia lgico. No havia tempo a perder, e o lder dos Karas no perdeu um minuto:
   - Temos de agir depressa, Karas. Eu e Cal j estamos queimados. Todos pensam que ns tambm fomos seqestrados.  um disfarce perfeito. Cal, voc acha que pode 
maquiar ns quatro, de modo que nem as nossas mes possam nos reconhecer?
   -  claro Kara.
   - Muito bem. Meu plano  este: Magr e Crnio vo entrar para a lista dos desaparecidos tambm.
   - O qu?!
   -  isso mesmo. As famlias de vocs dois vo tomar o mesmo susto que a minha, que a do Cal, que a do Bronca, que a do Chumbinho e que a de todos os outros. 
Magr e Crnio, vocs podem aceitar esse sacrifcio?
   - A causa  boa, Miguel - respondeu Magr.
   - Estou pronto - concordou Crnio.
   - timo. Nosso melhor disfarce ser constarmos da lista dos seqestrados. Maquiados pelo Cal, poderemos circular livremente, sem a obrigao de aparecer em casa 
para tranqilizar nossas famlias. Vai ser duro, mas  o nico jeito.
   - Conte com a gente, Miguel.
   - Ento vamos usar a mesma ttica que os bandidos, Karas.
   - A mesma ttica? Como assim?
   - Ns vamos ser falsos estudantes infiltrados nos quatro colgios selecionados pelo Crnio. Exatamente como o falso Bino. S que ns levamos uma enorme vantagem 
sobre ele. Ns sabemos que ele est em um desses colgios, mas ele no sabe que ns estamos atrs dele.
   - Mas o falso Bino tambm pode estar disfarado.
   - Pois o nosso desafio ser descobrir qual  o disfarce do falso Bino antes que ele descubra qual  o nosso.
   - Vamos  luta. Ou ns ou ele!
   - Magr, voc vai para o Rio Branco. Cal vai investigar o Porto Seguro. Crnio fica com o Pueri. Eu vou para o Logos.
   Cal fez uma lista e entregou-a a Magr.
   - Arranje estes materiais de maquiagem pra mim. Tem tudo nos camarins do anfiteatro.
   A menina pegou a lista e, antes de desaparecer pelo alapo do forro, aproximou-se suavemente de Crnio.
   - Desculpe, Crnio. Desculpe eu ter gritado com voc. Eu estava nervosa. Nervosa e errada. As suas teorias foram maravilhosas. Como sempre.
   A menina beijou Crnio na boca. Foi um beijo rpido, mas o suficiente para fazer o garoto sentir uma tonteira gostosa como... como ele nunca antes tinha sentido 
na vida...
   
   

  15. Os trs incompetentes
   
   O vdeo do intercomunicador acendeu-se e a silhueta do Doutor Q.I. projetou-se sobre os trs grandalhes que, naquele momento, mais pareciam trs moleques apanhados 
no meio de uma travessura.
   Um pouco atrs dos trs, confortavelmente instalado em uma poltrona, algum se divertia com a situao e brincava com um molho de chaves.
   A voz metlica estava furiosa:
   - Seus incompetentes! Cambada de paquidermes! Como  que trs brutamontes como vocs no conseguem pegar um simples funcionrio como Mrius Casprides?
   O Coisa, sem saber o que fazer com as mos, tambm no sabia direito o que fazer com a fala:
   - Doutor Q.I.... sabe o que foi?  que... a gente deu azar!
   - Azar deu a Pain Control quando contratou vocs trs para a segurana!
   - Foi azar mesmo, Doutor Q.I. - desculpou-se o Fera. - O tal Mrio Caspinha conseguiu sair pelos portes, nem sei como. Mas ns vimos quando ele subiu num nibus. 
Fomos atrs dele at o centro da cidade. Ele se meteu no meio da multido e, quando a gente estava quase botando a mo nele...
   - A gente estava quase... - tentou completar o Coisa.
   - Cala a boca, seu cretino! - ordenou a voz.
   - Como eu ia dizendo - continuou o Fera -, o azar foi que o tal Mrio das Caspas correu justo para um lugar em que um Z da Silva qualquer estava assaltando um 
banco e...
   A voz metlica e enfurecida do Doutor Q.I. perdeu o pouco de pacincia que ainda tinha:
   - E vocs trs arranjaram um jeito de ser presos como trs trombades principiantes!
   - Foi uma coincidncia, Doutor Q.I.! Como  que a gente ia adivinhar que a polcia ia aparecer por causa de uma porcaria de assalto a banco, logo quando a gente 
estava perseguindo um sujeito, com as armas nas mos?
   - A sorte de vocs  que a Pain Control tem gente infiltrada na polcia. De outro modo, vocs iam acabar condenados como cmplices de assalto a banco!
   O homem da poltrona parou de brincar com o molho de chaves e entrou na conversa:
   - Desta vez deu para livrar estes trs, Doutor Q.I. No foi muito difcil porque o escrivo  meu amigo e eu fiz com que ele no registrasse o flagrante. Sumi 
com as armas dos trs e assim foi possvel livr-los. Mas  preciso ter mais cuidado. O ambiente est pegando fogo. Se eu no tivesse agido a tempo...
   - Eles estariam encrencados, no , detetive? - interrompeu o Doutor Q.I. - E a Pain Control, em conseqncia, estaria encrencada junto, no , meu caro detetive? 
E o senhor sabe o que teria de fazer nesse caso, detetive?
   Depois de um breve silncio, a voz do detetive soou naquela sala como se fosse a voz cavernosa de um carrasco:
   - Eu teria de eliminar os trs, l mesmo, dentro do crcere da delegacia...
   Podia-se ouvir o som da saliva sendo engolida por trs grossas gargantas.
   - E o senhor faria isso, detetive? - perguntou o Doutor Q.I. -  claro que eu faria.
   O Doutor Q.I. deu o tempo suficiente para que a ltima frase fizesse o efeito que tinha de fazer dentro das mentes acanhadas dos trs seguranas da Pain Control. 
Por um momento, s se ouvia o barulhinho irritante do molho de chaves.
   A voz do Doutor Q.I. novamente se fez ouvir:
   - Vocs pensam que o problema est resolvido simplesmente porque o nosso detetive conseguiu libert-los? Nada disso! Enquanto Mrius Casprides estiver  solta, 
todo o esquema da Pain Control est em perigo. Ele , agora, o nosso inimigo mais importante. Foi ele quem criou a Droga da Obedincia. Ele sabe tudo o que  preciso 
saber para destruir a nossa organizao!
   Uma pausa assustadora percorreu a sala. No se ouvia mais nem o rudo do molho de chaves.
   - Vocs trs so ignorantes demais para compreender a grandeza do nosso projeto. E o bioqumico Mrius Casprides foi idealista demais para perceber que o verdadeiro 
idealismo est do nosso lado. No precisamos de uma droga como esta para acalmar loucos furiosos. Ns precisamos dela para controlar a humanidade!
   Enquanto o vdeo comeava a escurecer, ainda foi possvel ouvir as ltimas ordens do Doutor Q.I.:
   -  o futuro que est em jogo. Quero a cabea de Mrius Casprides j, ou as cabeas de vocs  que rolaro!
   

  16. A outra mensagem de Chumbinho
   
   Silenciosamente como tinha sado, Chumbinho voltou para o dormitrio. Estava quase amanhecendo quando subiu para o seu beliche e ficou ali, encolhido, ouvindo 
o ressonar suave dos pobres meninos obedientes.
   Todos tinham tomado a dose noturna da Droga da Obedincia e estavam cumprindo direitinho a ordem de dormir.
   Menos Chumbinho. O garoto estava s, no meio de tanta gente. S ele tinha conscincia do que estava acontecendo. Esgueirando-se pelas paredes, aproveitando cada 
sombra para esconder-se, o menino tinha percorrido todos os cantos daquela fbrica dos infernos. E ele tinha tido a sorte de presenciar a discusso do tal Mrius 
Casprides com aquela silhueta no vdeo, que mais parecia um personagem de filme de terror.
   Agora ele sabia. Agora ele compreendia a extenso do perigo que aquela droga representava. E ele no podia sentir medo. Era um Kara. O nico que poderia fazer 
alguma coisa.
   Ele tinha roubado uma caneta e uma folha de um bloquinho papel em uma das salas por onde passara durante as investigaes noturnas. Aproveitando as primeiras 
luzes da madrugada, Chumbinho comeou a redigir uma mensagem para os Karas. Ainda no sabia como fazer chegar aquele bilhete s mos de seus amigos, mas era urgente 
falar para eles daquela droga maldita. Era preciso tambm que eles soubessem que havia um aliado, e que esse aliado era o prprio inventor da Droga da Obedincia, 
o bioqumico Mrius Casprides.
   Cuidadosamente Chumbinho recortou pequenas tiras do papel e tentou escrever em letras bem pequenas, a forma mais curta para dar o seu recado. Mas e se o bilhete 
fosse interceptado pelos bandidos? Era preciso escrever em cdigo. Mas que cdigo? Ele conhecia alguns dos cdigos dos Karas. S que, se ele os tinha descoberto, 
no seria tambm fcil para os bandidos decifr-los?
   Chumbinho tomou uma deciso. Trabalhou febrilmente, com a menor letra que conseguiu e, por fim, a mensagem coube em uma pequena tira de papel.
   Olhou para o enorme curativo que sua me tinha feito por causa da espetadinha da "iniciao na Ordem dos Karas". Era como um grande dedal de gaze enrolado com 
esparadrapo no indicador da mo esquerda. Retirou o curativo como se puxasse um dedo de luva e enfiou ali dentro o papelzinho enrolado. Colocou novamente o curativo 
no lugar, e estava amassando as tirinhas de papel com os rascunhos do cdigo quando a porta do dormitrio se abriu.
   O menino fingiu que dormia, mas, atravs das plpebras semicerradas, viu entrar um empregado de avental branco. O sujeito trazia uma bandeja cheia de comprimidos, 
que colocou sobre uma mesa.
   - Hora de acordar, menininhos obedientes! Vamos, acordem!
   Todos acordaram e puseram-se de p imediatamente. Nada das normais espreguiadas e esfregaes de olhos. Nenhuma risada, nenhuma brincadeira, nenhuma palavra. 
No mais eram jovens inteligentes e cheios de vida. Eram mquinas estpidas.
   - Venham c - ordenou o empregado. - Cada um pegue um desses comprimidos e tome. Depois, todo mundo para o banheiro. Andem logo, que hoje temos muitos testes 
a fazer!
   Chumbinho colocou-se na fila que caminhava em direo  bandeja de comprimidos para tomar o reforo da droga maldita.
   "No posso mais ficar sozinho", pensou o menino. "Preciso de mais algum comigo. Quem sabe..."
   A idia lhe ocorreu quando j estava em frente  bandeja. Rapidamente, pegou dois comprimidos e deixou cair na bandeja a bolinha que tinha feito ao amassar o 
papel que sobrara. Fingiu que tomava a droga e escondeu os dois comprimidos no macaco. Com o canto do olho, viu quando Bronca chegou junto  bandeja, pegou e engoliu 
a bolinha de papel como se fosse um comprimido.
   Pronto! Chumbinho sorriu por dentro. Logo no estaria mais sozinho. O restinho do efeito da droga que Bronca havia tomado na noite anterior j devia estar passando 
e ento Chumbinho teria um companheiro lcido. Quem sabe se, juntos, no seria mais fcil criar um plano para fugir dali?
   O efeito da Droga da Obedincia, pelo jeito, era to seguro que os empregados nem precisavam se preocupar muito com a vigilncia dos garotos. Depois de dar a 
ordem, o empregado de avental saiu do dormitrio. Com certeza daria um tempinho para as cobaias idiotas irem ao banheiro. Enquanto isso, foi cuidar de outra coisa 
qualquer.
   O banheiro era grande e no havia separao entre os meninos e as meninas. Drogados, eles eram cobaias sem sexo.
   O plano de Chumbinho comeou a dar certo: parado no meio do banheiro, Bronca parecia confuso. Olhava espantado para uma linda menina, sentada no vaso de porta 
aberta. Sacudiu a cabea, como que para acordar de um sonho.
   - Onde estou? O que est acontecendo? O que est havendo comigo?
   Chumbinho agarrou o colega pelos ombros, cheio de esperana.
   - Bronca! Que bom! Voc est acordando! Olhe pra mim. Eu sou Chumbinho, seu colega do Elite, aquele do fliperama. Lembra-se de mim?
   - Chumbinho? - Bronca ainda estava meio tonto. - O que voc est fazendo aqui? - O que eu estou fazendo aqui? O que est havendo?
   - No temos muito tempo para explicaes, Bronca. Voc tomou uma droga que o Bino ofereceu l no Elite, no se lembra?
   - Bino? Elite? Sim...
   - Aquela era a Droga da Obedincia, Bronca. Uma droga terrvel que transformou voc num morto-vivo. Veja, todos os outros garotos esto drogados. Mas voc no 
est mais. Eu troquei o comprimido que voc devia tomar por uma bolinha de papel!
   - Droga da Obedincia? Que histria  essa?
   - Fique firme, Bronca. Temos de encontrar um jeito de cair fora daqui. Finja que est drogado. Faa tudo direitinho como os outros. Finja que est obedecendo 
s ordens. Essa gente  perigosa! Eles...
   - Me larga! - berrou Bronca. - Que negcio  esse? Quero ir embora daqui!
   Atrs do amigo assustado, Chumbinho viu, na porta do banheiro, dois empregados que olhavam surpresos aquela discusso. Bronca desvencilhou-se das mos de Chumbinho 
e correu para a porta, na direo dos empregados.
   - Sai da frente! Quero sair daqui! O que vocs esto pensando?
   Os dois empregados tentaram agarrar Bronca, mas o garoto era forte e estava enfezadssimo. Com dois safanes, abriu caminho entre os dois e correu pelo dormitrio. 
Os empregados e Chumbinho correram atrs. Bronca abriu a porta do dormitrio e enfiou-se por um longo corredor.
   - Pega! No deixa fugir!
   Chumbinho viu quando Bronca empurrou um funcionrio que tentava barrar-lhe o caminho. O sujeito caiu, mas, de joelhos, sacou um revlver e apontou para as costas 
do macaco azul, onde estava bordado D. O. 19.
   Um claro, e o corpo do Bronca foi arremessado para a frente, como se tivesse tropeado.
   Quando Chumbinho chegou junto ao colega, um orifcio negro enfeitava a letra D. O menino ajoelhou-se junto ao cadver e sussurrou, tomando-lhe a mo esquerda 
nas suas:
    sua volta, um grupo de empregados discutia excitadamente:
   - O que houve? Esses garotos no tomaram a droga?
   - Sei l! Eu mandei tomar!
   - Aqui tem coisa!
   - Agarra esse a! Temos de falar com o Doutor Q.I.!
   No momento em que a mo pesada do empregado agarrou o ombro do Chumbinho, o menino havia acabado de tirar o curativo e enfi-lo no dedo do cadver.
   
   
   

  17. O cadver mensageiro
   
   Magr havia vasculhado todos os cantos do Colgio Rio Branco sem encontrar nem sinal do Bino. Ela era boa fisionomista e tinha certeza de poder reconhecer o oferecedor, 
mesmo que ele estivesse disfarado. No, Bino no estava no Rio Branco.
   Agora era ir ao encontro combinado com os Karas, s sete da noite, numa lanchonete do centro da cidade. L, eles tinham certeza de no encontrar nenhum conhecido: 
a classe alta no freqenta a avenida So Joo.
   Passava um pouco das seis quando Magr chegou ao centro da cidade. Anoitecia, e a menina achou divertido vagar incgnita pelos calades da Baro de Itapetininga 
e da Conselheiro Crispiniano, misturada  multido de funcionrios que enchiam as ruas, cansados no fim de uma quarta-feira de trabalho.
   Magr sentia-se muito segura em seu disfarce. O cabelo estava diferente e Cal havia colocado uns arames em sua boca, para parecer aparelho de correo dentria. 
Aquela ferragem mudava a conformao do seu rosto e modificava-lhe a voz. A menina vestia uma jaqueta com enchimentos que lhe alteravam totalmente o porte elegante. 
Palmilhas dentro dos tnis machucavam-lhe um pouco os ps, mas obrigavam-na a andar de modo diferente. Sobrancelhas unidas completavam o disfarce.
   "Como estou horrorosa!", divertia-se a menina, vendo a prpria imagem refletida em uma vitrina.
   Aos poucos, uma outra imagem, formada atrs do seu reflexo, chamou-lhe a ateno. Estava em frente a uma loja de eletrodomsticos, e um televisor ligado num noticirio 
acordou-a do devaneio.
   - Desaparecimento de estudantes: outro cadver encontrado. Vejam no prximo segmento...
   O corao da menina disparou. Outro cadver! Ai, como foi difcil agentar os comerciais at ver novamente o locutor!
   - ... cadver de um rapaz, encontrado com um tiro nas costas, na estao do metr de Vila...
   A menina mal podia acreditar no que estava vendo. Para variar, os reprteres tinham agido mais rpido do que a polcia e ali, na tela, estava o corpo do Bronca, 
lvido como um lenol!
   Apesar do choque, a rapidez de raciocnio e a ateno treinada de Magr no se deixaram abalar. Ela era um Kara antes de tudo. E aquele detalhe no lhe escapou: 
no dedo do cadver havia um curativo. Um curativo grande, exagerado como o que havia no dedo do Chumbinho!
   Coincidncia? Talvez, mas uma pista suficiente para fazer a menina correr pela Dom Jos de Barros at  So Joo.
   Magr sabia que conseguir um txi quela hora era uma faanha. Por isso abriu a porta de um que estava parado no sinal e ofereceu ao passageiro:
   - Estas cinco notas para o senhor, se me ceder este txi! Surpreso, o passageiro concordou.
   - Obrigada! - a menina entrou no txi e estendeu outras notas para o motorista. - Mais cinco para o senhor, se me levar voando para a Teodoro Sampaio com a avenida 
Doutor Arnaldo!
   Era uma boa vantagem no ser pobre naquela hora. Em poucos minutos Magr estava desembarcando do txi em frente ao Instituto Mdico Legal.
   
    * *
   Todos os funcionrios e at os policiais ficaram com pena daquela garotinha desesperada. Afinal, que mal haveria em deixar entrar a infeliz namoradinha do garoto 
assassinado? Era melhor que ela se despedisse dele antes que o corpo da vtima fosse destrudo pela autpsia.
   A menina, de aparelho nos dentes, descabelou-se ao ver o cadver do rapaz estirado numa pedra fria no necrotrio.
   - Bronca! Meu amor! O que fizeram com voc, meu querido? Ai de mim! Assassinaram o meu amor!
   A menina atirou-se sobre o cadver, beijou-o exageradamente e agarrou-se em sua mo.
   - Por qu? Por que fizeram uma coisa dessas? O que ser de mim agora?
   Delicadamente, um funcionrio retirou dali a chorosa namoradinha da vtima.
   
   * * *
   Ainda abalado pela comovente cena que acabara de presenciar, o detetive gordo, exausto, suado, ficou olhando para o cadver.
   - Bandidos... assassinos! Que crueldade...
   De repente, seu faro treinado de co policial deu um alerta. Alguma coisa estava diferente!
   - Ei, voc! - chamou ele por um funcionrio. - Rpido! Quero ver as fotos que tiraram do cadver!
   O funcionrio atendeu prontamente e o detetive gorducho examinou as fotos, comparando-as com o cadver  sua frente.
   - Inferno! Est faltando o curativo do dedo! A menina! Cad a menina? Prendam depressa a menina que acabou de sair daqui!
   Mas era tarde demais. Por mais que procurassem, foi impossvel encontrar a namoradinha do garoto assassinado.
   
   

  18. O perigoso espiozinho
   
   Depois de enfiar o curativo com a mensagem no dedo do cadver do Bronca, Chumbinho foi arrastado aos trancos por um corredor. Vrios empregados falavam nervosamente 
ao seu redor, enquanto dois deles agarravam seus braos e os mantinham torcidos s costas.
   Chumbinho no deixou escapar um s gemido. Era um Kara. Naquele momento, ele no pensava no que poderia acontecer consigo mesmo. S tinha pensamentos para o colega 
assassinado e para a esperana de que sua mensagem fosse encontrada por um dos Karas.
   No fim do corredor, o menino foi empurrado para dentro de uma sala. Jogaram-no numa cadeira, e os dois empregados que o haviam trazido ficaram ao lado, cada um 
segurando pesadamente Chumbinho por um ombro, como se ele fosse capaz de escapar voando pela janela.
   Um dos homens dirigiu-se a um televisor igual quele em que o menino tinha visto Mrius Casprides discutir com o Doutor Q.I.
   A silhueta sinistra apareceu no vdeo do intercomunicador e o empregado comeou a relatar o que tinha acontecido.
   - ... algo estranho com duas das cobaias, Doutor Q.I. Nesta manh...
   Chumbinho tentou raciocinar depressa e prever as conseqncias do seu ato. Ele tinha sido apanhado em flagrante e agora tudo podia acontecer.
   - ... so justamente os dois do Colgio Elite, Doutor Q.I....
   Os empregados tinham visto ele e Bronca conversando. Logo, estava claro que os dois no tinham tomado a dose matinal da droga.
   - ... certamente os dois no estavam sob o efeito da Droga da Obedincia, Doutor Q.I....
   Ento era lgico para os bandidos que ele tinha impedido o Bronca de tomar a droga e seria punido por isso.
   - ... estavam discutindo no banheiro. Foi a que a cobaia nmero 19 saiu correndo feito um louco...
   Qual seria a punio? Chumbinho imaginava que a sua atitude de espio deveria representar um enorme perigo para a organizao. E o que eles fazem com os espies? 
O menino engoliu em seco ao lembrar-se das cenas de fuzilamento nos filmes de guerra.
   - ... tivemos de atirar, no houve outro jeito. A cobaia nmero 19 est morta. J mandei abandonar o cadver, como planejamos. Quanto  cobaia nmero 20...
   Agora era a sua vez. Ele tinha causado aquela confuso toda e... No! Havia um jeito. Ele tinha de representar de novo. Quem sabe conseguiria salvar a pele?
   Do vdeo, veio a voz filtrada, tenebrosa, do Doutor Q.I.:
   - Incompetncia! Incompetncia! Tudo o que eu vejo  incompetncia. Vocs no se certificaram de que todas as cobaias tomassem o reforo da droga?
   - Na verdade no, Doutor Q.I. - desculpou-se o funcionrio. - As cobaias tm se comportado direitinho nesses dois meses. Executam todas as ordens sem discusso, 
tomam os reforos da droga sem necessidade de vigilncia. Deixamos a bandeja com a droga no dormitrio, como fazemos todas as manhs. Ordenamos s cobaias que tomassem 
a droga e...
   -Mas por que as cobaias 19 e 20 no tomaram? Vocs podem explicar isso.
   - Bem, Doutor Q.I., eu...
   A figura da tela do intercomunicador berrou para Chumbinho:
   - Garoto! Por que voc no tomou o remdio? Chumbinho comeou com o seu teatro:
   - Ahn? Onde estou? O que est acontecendo? Eu estava no colgio, falando com o Bino. Ele me deu uma coisa para experimentar... Disse que era timo... a s me 
lembro de estar num banheiro, com o Bronca falando pra gente fugir... Onde estou? Quero ir pra casa!
   Do vdeo, a voz veio mais baixa, quase paternal:
   - Voc j vai pra casa, menino. Vai s tomar um remedinho, e logo vai pra casa...
   Chumbinho viu o empregado estender-lhe um comprimido e um copo d'gua.
   A Droga da Obedincia! E agora? Todos estavam olhando para ele e no haveria jeito de fingir que tomava a droga. Ele era obrigado a tomar o comprimido, de verdade!
   - Um remdio? - balbuciou o menino. - Depois eu vou pra casa?
   - Vai sim, garoto. Agora tome o remdio.
   Tentando disfarar seu temor, Chumbinho pegou o comprimido. Colocou-o na boca e tomou um gole d'gua. Seus olhos se fechavam quando ele ouviu a voz metlica falar 
com brutalidade:
   - De agora em diante, quero vigilncia total sobre as cobaias. No admito mais enganos! Levem esse moleque para junto dos outros!
   Chumbinho deixou-se levar, molemente, como um boi que vai para o matadouro.
   
   * * *
   O Doutor Q.I. estava furioso quando desligou o intercomunicador. Mas sua zanga foi distrada pela manchete do jornal que estava  sua frente:
   Mais dois estudantes do Elite desaparecem misteriosamente.
   
   O comandante da Pain Control franziu as sobrancelhas e leu avidamente a matria. Ali estava a lista completa dos seis desaparecimentos do Elite: Bronca, Chumbinho, 
Miguel, Cal e agora Magr e Crnio.
   Ele sacudiu a cabea, tentando entender. Em seguida, apertou um boto do intercomunicador e deu uma ordem.
   - Localizem nosso agente escolar. Quero falar com ele pelo intercomunicador.
   * * *
   O falso estudante estava na frente do vdeo. Mas estava totalmente modificado. At a cor do seu cabelo era diferente. S pelo olhar  que dava para ver que era 
mesmo o safadinho do Bino.
   - Voc tem agido bem at agora - cumprimentou a voz autoritria do Doutor Q.I. - Mas eu tenho razes para acreditar que houve quebra na nossa segurana.
   - Quebra na segurana? - espantou-se Bino. - Eu posso garantir que...
   - No me interessam as suas garantias. Oua com ateno e no discuta. Eu tenho uma misso muito importante para voc. Trata-se de quatro garotos...
   O oferecedor da Droga da Obedincia ouviu as ordens. O que ele devia fazer tinha de ser feito naquele mesmo dia.
   
   
19. Cdigos combinados
   
   Na lanchonete da avenida So Joo, dois rapazes sentados em uma mesinha de canto olhavam ansiosamente para o relgio da parede quando uma garota entrou e sentou-se 
ao seu lado.
   - Miguel ainda no chegou? - perguntou a garota em voz baixa.
   - Ainda no - respondeu Crnio, que tinha o nariz deformado pela massa plstica de maquiagem. - Ns estvamos preocupados com voc. So quase nove horas!
   - Voc encontrou o Bino? - perguntou Cal.
   - No, mas tenho uma pista.
   Em poucas palavras Magr relatou a morte do Bronca e a histria do curativo no dedo. Por fim, estendeu o dedal de esparadrapo e gaze para Cal:
   - Veja voc, Crnio -disse Cal, que no conseguia acostumar-se com os enormes culos que usava como disfarce.
   Crnio abriu cuidadosamente o curativo, que j estava imundo depois de rolar mais de um dia em vrias mos. Dentro dele descobriu um papelzinho enrolado.
   - S pode ser a letra do Chumbinho - observou Magr. - Mas no d pra entender nada.
   Os trs leram ansiosamente, enquanto Crnio transcrevia a mensagem em letras maiores num guardanapo de papel da lanchonete. O texto era a coisa mais confusa do 
mundo:
   Dsenterginis dinis Enterbomberdaismberlcaisinis:
   Tombersaisgenter! Inis chinisvomber mber
   Minissaisufterr Cinisrtmbersaisdomberr.
   - Parece o nosso Cdigo Vermelho - observou Magr. - Mas no faz sentido...
   Crnio sorriu:
   - Esse Chumbinho  mesmo uma figura! Voc tem razo, Magr. Aqui tem o Cdigo Vermelho. S que, por segurana, o danado do Chumbinho usou dois cdigos combinados! 
Vamos traduzir primeiro o Cdigo Vermelho.
   Em outro guardanapo, Crnio escreveu o Cdigo Vermelho dos Karas:
   A = ais 
   E = enter
    I = inis 
   O = omber 
   U = ufter
   Agora, era s substituir aqueles sons estranhos pelas vogais correspondentes:
   - Hum... deixa ver. Dsenterginis... d dsegi... Feita a traduo, a mensagem ficou assim:
   Dsegi di Ebodalcai: Tosage!
    I chivo  Msaur Cirtsador.
   
   - Bem bolado! -aplaudiu Cal. -Aposto que agora basta aplicar o Cdigo Tenis-Polar!
   Era isso mesmo. Para decifrar o cdigo, bastava escrever a palavra tnis sobre a palavra polar, de modo que o t correspondesse ao p e assim por diante. Depois, 
era s substituir uma letra pela outra. Crnio escreveu em outro guardanapo:
   - Dsegi. D no tem cdigo, fica D mesmo; s  igual a r; e  igual a o; g tambm no tem cdigo, fica g mesmo; e i  a. Pronto! Temos a primeira palavra!
   No guardanapo, estava escrita a palavra Droga.
   - Droga? Estamos na pista certa. Vamos ver o resto.
   Em pouco tempo, a mensagem de Chumbinho estava traduzida:
   Droga da Obedincia: Perigo! A chave  Mrius Casprides.
   - Boa, Chumbinho! - Se o menino estivesse ali, na certa ganharia um beijo da Magr.
   Cal comeou a compreender:
   - Quer dizer que aquela droga que deixa as pessoas com cara de idiota  a Droga da Obedincia?
   - ... - concordou Crnio. - E, pelo nome, d at para ter uma idia do que representa essa porcaria. Droga da Obedincia! Por isso o Bronca estava to bonzinho, 
no ? To obediente, to bom menino...
   - S que agora o Bronca est morto! - lembrou Magr, com um n na garganta.
   - Droga da Obedincia... obedincia... morte! -raciocinou Crnio em voz alta. - Uma droga que reduz as pessoas  obedincia absoluta!
   - Aposto que muitos pais e professores bem que gostariam de contar com um pouco dessa droga, n?
   - No caoe, Cal! A coisa  muito sria. Estamos lidando com gente que seqestra estudantes, que os usa como cobaias! - ralhou Crnio.
   - Que os mata! - acrescentou Magr.
   - E quem ser essa "chave"? Quem ser Mrius Casprides?
   - J ouvi esse nome - informou Crnio. -  um cientista, um bioqumico, se no estou enganado. Acho que li alguma coisa a respeito dele. Na ltima reunio da 
Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia ele apresentou uns estudos sobre engenharia gentica aplicada ao tratamento de doenas psiquitricas graves, ou 
qualquer coisa do gnero.
   - Um bioqumico? - perguntou Magr. - Ento vai ver ele sabe alguma coisa sobre essa Droga da Obedincia.
   - Vamos procur-lo, ento! - decidiu Cal.
   - Mas, como encontr-lo?
   Crnio saiu-se com um sorriso misterioso:
   - Eu tenho um mtodo cientfico e infalvel para resolver um problema como esse!
   -  mesmo? E qual  o mtodo?
   - Procurar na lista telefnica! - brincou o gnio dos Karas.
   
   * * *
   Foi fcil encontrar o endereo do bioqumico Mrius Casprides na lista telefnica da lanchonete. Ficou decidido que Magr e Crnio iriam procur-lo.
   - E Miguel?
   - Talvez tenha ido para o esconderijo secreto - sups Cal. - Eu vou para l. Descubram o tal bioqumico e me encontrem no esconderijo.
   
   * * *
   Cal foi sozinho num txi. No outro, ia um garoto muito inteligente e muito feliz: Magr deixara-se abraar e foi a viagem toda com a cabecinha repousando no 
ombro de Crnio...
   

  2O. Em busca de fortes emoes
   
   Miguel sentia-se muito desconfortvel com a cabeleira encaracolada que Cal tinha arranjado para ele. Com o bigode ralo de adolescente, ento, ele se sentia ridculo. 
Mas tinha de concordar que o trabalho de maquiagem de Cal era de primeira.
   Para falar a verdade, at que Miguel gostaria mesmo de j ter bigode. Mas, por mais que ele raspasse, at agora os primeiros fios de barba ainda no tinham aparecido.
   Misturado na multido de estudantes do Logos, naquela hora Miguel no pensava no desconforto da cabeleira nem no ridculo do bigodinho precoce. O lder dos Karas 
procurava avidamente o oferecedor. Mas o tempo passava e Miguel no conseguia encontrar o Bino.
   "E claro que ele deve estar disfarado", pensava o rapazinho. "E deve ser um mestre do disfarce para se matricular em dez colgios, sempre com uma cara diferente. 
Ser que eu vou conseguir reconhec-lo? Tenho de conseguir!"
   A cabeleira encaracolada fazia Miguel suar. Quando o sinal tocou e todos comearam a correr para as classes, ele deu um
   jeito de entrar no banheiro. Tirou a cabeleira e colocou a cabea debaixo da torneira.
   Nesse momento, ouviu uma voz atrs de si:
   - Oi...
   Com a gua escorrendo pelo rosto, Miguel viu um garoto estranho, diferente, que olhava fixamente para ele.
   - Hum? Oi... - respondeu Miguel.
   - Voc  novo por aqui? - perguntou o estranho.
   Foi a que Miguel percebeu o erro que tinha cometido. Aquele era Bino, espetacularmente disfarado! E ele, Miguel, estava ali, desprevenido, apanhado como um 
patinho! Disfaradamente livrou-se da cabeleira, deixando-a cair no cesto de papis ao lado da pia.
   - Novo? Eu... comecei neste ano. E voc?
   - Acabei de me matricular.
   Bino! Era ele mesmo! Teria reconhecido Miguel? Talvez no, quem sabe? Talvez ele nem se lembrasse de Miguel, j que tinha estado to pouco tempo no Elite...
   - Voc est com algum problema, amigo?
   O desgraado estava entrando direto no assunto. Sem medo. Sem rodeios. E agora?
   Miguel achou melhor arriscar tudo e entrar logo com o seu jogo:
   - Sei l. Estou numa fossa... Sem pique, sei l...
   Bino chegou-se amigavelmente, sorrindo, e passou o brao pelos ombros de Miguel:
   - Eu tenho uma coisa legal, aqui. Voc quer emoes?
   - Estou a fim. Coisa forte?
   - Da pesada. Entra nessa?
   Bino parecia estar com pressa. No disfarava nada, como se tivesse certeza de que Miguel aceitaria. Com firmeza, foi levando Miguel para fora.
   - Ento venha c. Voc vai gostar.
   Alguma coisa estava errada. A intuio de Miguel o alertava, mas ele tinha de seguir em frente. Tudo estava fcil demais, mecnico demais, sem qualquer simulao.
   Saram do colgio, e Bino, sempre com o brao em torno dos ombros de Miguel, levou-o para a direita, descendo a avenida Rebouas.
   Aonde estava sendo levado? Miguel no sabia, mas estava certo de que o mtodo usado para raptar Bronca e Chumbinho no tinha sido aquele. Eles estavam quebrando 
a rotina. Ser que...
   Uma perua toda fechada parou ao lado dos dois. A porta foi aberta e algum ordenou:
   - Entre!
   No instante em que ele descobriu que estava caindo numa armadilha, no havia tempo para mais nada. Bino empurrou-o por trs. Pela frente, um brao musculoso agarrou-lhe 
o pescoo, e uma pesada mo tapou-lhe a boca e o nariz com um pano.
   Lutando para libertar-se, Miguel sentiu o cheiro forte do clorofrmio.
   
   ***
   A cabea rodava e o estmago estava enjoado quando Miguel acordou. Viu-se em um quarto nu, como uma cela. No havia janelas. A ventilao vinha de uma abertura 
no teto e uma lmpada iluminava frouxamente o quarto.
   Passou a mo pelo rosto e viu que no tinha mais o bigodinho falso.
   A cama onde estava estirado era dura, mas a limpeza do ambiente fazia aquilo parecer mais um hospital do que uma priso.
   "Deve ser um quarto de luxo. At televiso tem aqui!", pensou o rapaz, sentando-se na cama.
   A tal "televiso" acendeu-se sozinha e uma silhueta apareceu no vdeo:
   - Boa tarde, Miguel. Eu estava esperando por voc.
   
   
21. Um casal de namorados curiosos
   
   A pequena casa geminada, na Vila Mariana, estava s escuras. Mas o instinto alerta do casal de Karas indicou que havia alguma coisa errada.
   Magr e Crnio passaram em frente  casa, abraados, fingindo-se de namorados (essa,  claro, foi uma idia do Crnio).
   No se notava nenhum movimento na casa, mas, l de dentro, ouviam-se sussurros que poderiam ser percebidos at por quem no estivesse prestando ateno:
   - Bzzz... bzzz... bzzz...
   - Hein?
   - Bzzz..- bzzz... bzzz...
   - Hein? No estou entendendo nada!
   - O camarada est demorando!
   - Fala baixo, seu cretino!
   - Bzzz... bzzz... bzzz...
   - Hein?
   O casal de namorados continuou andando. Na esquina, um grande carro negro estava estacionado. Dentro, dava para perce-
   Crnio e Magr aproximaram-se um pouco mais do carro e Crnio aproveitou para "representar" um namorado mais entusiasmado. (O que estragava eram aqueles arames 
que Cal tinha botado na boca de Magr...)
   Dentro do carro, a enorme sentinela dormia um sono de roncar. Pronto. Os Karas estavam  vontade para investigar a casa.
   Com a agilidade de campe de ginstica olmpica do Colgio Elite e a esperana de medalha de ouro para o Brasil nas prximas Olimpadas, Magr escalou a parede 
da casa e deslizou sobre o telhado. Como se estivesse num exerccio de argolas, pendurou-se no beirai do telhado pelas pernas, jogando a cabea para baixo. Assim, 
dependurada como um morcego, Magr viu, atravs da veneziana, dois vultos imensos. Viu e pde entender melhor os sussurros.
   - Eu acho que o tal Mrio no vai aparecer - dizia o Animal.
   - Como no vai aparecer?! - argumentava o Coisa. - Ele mora aqui!
   - Eu sei que ele mora aqui, mas est fugindo.
   -  claro que est fugindo. Mas, para onde?
   - Como  que eu vou saber? Se eu soubesse, ia l e liquidava com ele!
   - E bom a gente liquidar com ele logo. Voc ouviu o Doutor Q.I. Ele quer a cabea com caspas do tal Mrio. Ou vai querer a cabea da gente em troca!
   - Ento, pense! Para onde pode ter fugido o sujeito?
   - Eu penso, eu penso o tempo todo - explicou o Coisa. - Mas acontece que eu no sou detetive!
   - Veja bem: a gente perseguiu o tal Mrio at  praa do Patriarca, lembra?
   - Lembro. Da ele correu pela rua da Quitanda...
   - Virou  direita na 15 de Novembro e...
   - E a tinha um tal Z da Silva assaltando um banco e berrando que era o assaltante mais perigoso do Brasil!
   - E a a gente foi em cana, n?
   - ...
   - Junto com o tal Z da Silva. Sorte que tem aquele detetive que est do nosso lado, n?
   - ...
   - A o Z da Silva ficou em cana e a gente foi solto, n?
   - ...
   - E agora?
   - Agora o qu?
   - Como  que a gente vai pegar o tal Mrio Caspinha? 
   - Sei l. Acho que ele nem vai aparecer por aqui.
   - Tambm acho.
   - Ento, que  que adianta a gente ficar aqui, no escuro?
   - No sei. Mas, se a gente sair daqui, aonde vamos procurar?
   - Pense: pra onde pode ter ido o tal Mrio?
   - No sei. A gente estava perseguindo ele l na praa do Patriarca...
   - Isso voc j falou. E depois?
   - Depois a gente foi em cana.
   Magr achou que aquela conversa no tinha futuro. Ergueu o corpo, segurou no beirai agarrando-se numa calha de cobre e deixou o corpo cair suavemente. Foi a 
que a velha calha cedeu: cract!
   - O que foi isso? - perguntou o Animal.
   - Foi um cract! - explicou o Coisa...
   -  claro que foi um cract! Venha!
   Estabanadamente, os dois bandidos abriram a porta da casa de Casprides e precipitaram-se para o pequeno jardim.
   - Aqui no h nada - disse o Coisa. - S aquele casal de namorados.
   - Vamos perguntar a eles se viram alguma coisa!
   - Ei, psiu! Vocs a! Viram alguma coisa?
   O rapaz desgrudou-se da moa e disse, com a cara mais inocente do mundo:
   - Hum... o qu?
   - Vocs viram alguma coisa?
   - Que coisa?
   - Sei l. Qualquer coisa!
   - No vimos nada diferente...
   - No ouviram um Cract?
   - Cract? Acho que no...
   O Animal estava desnorteado:
   - Acho melhor a gente voltar para o carro.
   -  melhor mesmo.
   E l foram os dois grandalhes, discutindo pela rua, enquanto o casal de namorados se esgueirava para o jardim da casa.
   Com alguma dificuldade, Magr conseguiu forar uma janela. Crnio entrou em seguida.
   Com a ajuda de uma lanterna que encontraram na cozinha, procuraram avidamente por alguma pista do morador ausente.
   No foi difcil encontrar uma pasta volumosa, na qual estava escrito: Droga da Obedincia.
   Debruados sobre a pasta, leram as anotaes do bioqumico. E o que leram os fez tremer.
   Antes de sair, Crnio retirou uma foto de Casprides que havia em um porta-retratos.
   Encostaram a janela pelo lado de fora e sumiram na noite.
   
   
   
22. Na trilha de um desconhecido
   
   - Voc sabe que minha memria  como um gravador, Crnio - reforou Magr. - Eu ouvi claramente o que eles conversavam. Um dos sujeitos falou em um certo Doutor 
Q.I., algum que ameaava a vida deles se no trouxessem Mrius Casprides morto!
   - Doutor Q.I., no ? - sorriu Crnio. - Doutor Quociente de Inteligncia!. Vai ver ele  chamado assim por ter um altssimo quociente de inteligncia.  ele\ 
S pode ser ele. O crebro que est por trs desses crimes todos. A inteligncia criminosa! O meu inimigo! Mas duvido que o quociente de inteligncia dele seja maior 
do que o meu...
   Estavam no forro do vestirio do Colgio Elite. A madrugada ia alta, e Miguel ainda no tinha dado sinal de vida.
   - Miguel... Onde estar Miguel? - preocupava-se Magr.
   - Estamos to longe de Mrius Casprides quanto os bandidos - observou Cal, desanimado.
   - Ser? - perguntou Crnio, que ainda no havia perdoado o amigo por ter enchido de arames a linda boquinha da Magr.
   -Ser mesmo? Vamos ver o que temos: de acordo com os dois grandalhes, Mrius Casprides fugiu das mos da quadrilha, foi perseguido at o centro da cidade e 
eles o perderam de vista quando deram com um assalto acontecendo num banco, no ?
   -Foi isso que aqueles dois disseram...
   Crnio sorriu. Um sorriso de suspense, de triunfo.
   -Est rindo de qu, Crnio? Ficou maluco?
   - Vocs no esto percebendo? Mas  to simples!
   - O que  to simples, Crnio?
   - Vejam bem: o que vocs fariam se estivessem fugindo desesperadamente de uma poderosa quadrilha? O que vocs fariam se soubessem que a sua vida estava em perigo? 
Mais: o que vocs fariam se soubessem que nem adiantaria pedir ajuda, j que havia bandidos infiltrados na prpria polcia?
   Crnio deixou as perguntas no ar por um momento. Cal e Magr nada disseram. Crnio estava excitadssimo com a perspectiva de uma disputa intelectual entre ele 
e um gnio criminoso. Para os outros Karas, essa excitao era sinal de que ele j tinha uma resposta satisfatria na ponta da lngua. S que ele gostava de valorizar 
a prpria inteligncia e capacidade de resolver enigmas complicados. Os Karas conheciam a vaidade do amigo e sabiam que era melhor dar corda e deixar que ele explicasse 
o seu raciocnio do modo que gostava.
   - Vou dizer a vocs o que eu faria se fosse Mrius Casprides. Ele  um cientista genial, um privilegiado, e na certa pensou a mesma coisa que eu. Se eu estivesse 
fugindo de bandidos armados e no tivesse outra sada, eu simplesmente entraria em um banco gritando que aquilo era um assalto e me deixaria prender com a maior 
facilidade!
   - Mas, se houvesse bandidos infiltrados na polcia, voc seria desmascarado logo ao chegar na delegacia!
   - Talvez no. Se os policiais-bandidos no conhecessem direito a minha cara, bastaria eu dar um nome falso ao ser preso. Um nome como Z da Silva, por exemplo!
   - Quer dizer que...
   - Que Z da Silva e Mrius Casprides so a mesma pessoa!
   
   * * *
   A hiptese de Crnio parecia a idia mais maluca do mundo, mas era genial em sua simplicidade. Se o garoto estivesse certo, o bioqumico Mrius Casprides estaria 
preso, naquele mesmo instante, na mesma delegacia de onde tinham sido libertados os trs brutamontes, na mesma delegacia dos detetives Rubens e Andrade.
   - S tem uma coisa, Karas - lembrou Cal. - Z da Silva  o nome mais comum deste pas. H centenas de Zs da Silva presos em So Paulo. Na certa, s naquela 
delegacia deve haver uma meia dzia. Precisamos de um plano para...
   - Karas - interrompeu Magr. - Vocs esto esquecendo de uma coisa: Miguel ainda no apareceu!
   - Bom, Magr, vai ver ele encontrou o falso Bino e...
   - No adianta discutir isso agora - decidiu Crnio. - O dia ainda no amanheceu, e tudo o que a gente pode fazer tem de ser pela manh. Estamos exaustos. Vamos 
aproveitar essas horinhas para dormir um pouco.
   Ajeitaram-se como puderam no forro do vestirio. Aqueles trs dias tinham sido exaustivos, mesmo para os Karas. E o dia que estava para vir prometia mais ao 
ainda.
   Crnio fechou os olhos e sonhou com Magr em seus braos, sem arames nos dentes.
   Magr custou a pegar no sono. A fraca luz da lua, que se filtrava atravs das telhas de vidro, fez brilhar a lgrima que corria pelo rosto da menina.
   - Miguel... meu querido... onde est voc?
   

  23. O delrio do Doutor Q.l.
   
   - Quem  o senhor? Como sabe meu nome?
   A voz metlica que saa do vdeo parecia divertir-se:
   - Ora, ora, ora, Miguel. Eu sei muito mais do que o seu nome!
   - Quero sair daqui! O senhor no tem o direito de...
   - Calma, meu caro. Voc no est em situao de dizer quais so os meus direitos. Eu s quero conversar com voc. Pode me chamar de Doutor Q.l.
   - Eu fui trazido  fora para este lugar. Fui narcotizado! Que espcie de lugar  este onde se trazem pessoas  fora?
   - Voc est na Pain Control, Miguel. A mais poderosa indstria farmacutica do mundo. Voc nunca ouviu falar de ns porque atuamos sob os nomes de diferentes 
empresas. Mas, por trs de todas, comandando todas elas, est a Pain Control.
   Miguel percebeu que estava no covil dos lobos e que falava com o prprio lder da alcatia.
   - No pense que pode fazer comigo o que quiser, Doutor Q.l. Eu tenho amigos que...
   - Amigos? - cortou a voz metlica. - Quais? Crnio? Magr? Cal? Ah, ah, ah!
   - O senhor  um demnio! Como sabe esses nomes?
   - Ora, mas se foi voc mesmo que me contou...
   - Eu?! Como?
   - Voc se acha muito esperto, no , Miguel? Pensou que era uma idia brilhante desaparecer junto com Crnio, Magr e Cal, no ? Assim ficaria com maior liberdade 
de movimentos para atrapalhar os nossos planos, no ? Mas ser que no lhe ocorreu que voc podia enganar a todos, menos a ns?  claro que todo mundo pensou que 
vocs quatro tinham sido seqestrados. Menos ns! Somente ns sabamos quem estava ou no em nosso poder. Quando vocs se esconderam, foi como se tivessem mandado 
uma cartinha para a Pain Control dizendo quem eram os garotinhos que andavam fazendo perguntas nos ltimos dois dias...
   Miguel corou. Tinha cometido um erro. Um erro grave, que tinha exposto todos os Karas ao inimigo!
   - Quer dizer que so vocs os seqestradores de estudantes? Uma indstria de medicamentos! E esto usando os meninos como cobaias, certo?
   - Ora, ora! Que esperteza! Como descobriu isso?
   - No interessa como descobri. Eu quero saber  que remdio monstruoso  esse que precisa de jovens sadios como cobaias. Um remdio deve servir aos doentes, e 
no aos sadios!
   O Doutor Q.I. ficou em silncio. Parecia pensar. Quando falou novamente, sua voz j no tinha mais o tom de cinismo do incio da conversa. Agora ele falava com 
o entusiasmo de um louco:
   - Voc  muito inteligente, Miguel. Inteligente o bastante para perceber a grandeza do nosso projeto. Voc j pensou no significado do nome da nossa empresa? 
J pensou no que significa Pain Control? O nome da nossa corporao quer dizer Controle da Dor! Voc imagina o que significa uma organizao capaz de controlar a 
dor da humanidade? Uma organizao capaz de determinar quanta dor os habitantes do planeta podem sentir? Ns somos capazes de controlar a durao da vida humana, 
a qualidade da vida humana. Mexendo com uma simples frmula qumica, podemos determinar quantas crianas vo sobreviver em Biafra e quantas devem morrer no Maranho!
   - No! - protestou Miguel. - A misso de uma indstria farmacutica no  essa!
   - Voc tem razo. A nossa misso  maior. Para a sociedade perfeita que planejamos, no  suficiente controlar a quantidade de doena ou de sade que regula a 
humanidade. No! Ns queremos uma sociedade perfeita como a das formigas, onde cada um conhea o seu lugar e nele permanea, produzindo aquilo que deve produzir, 
cumprindo as ordens que deve cumprir!
   - Isso  uma loucura! Isso...
   - Foi a que ns descobrimos a Droga da Obedincia. E essa droga maravilhosa vai abrir caminho para o nosso sonho de perfeio: a Pain Control vai transformar-se 
na Will Control!
   O Doutor Q.I. deixou sua declarao fazer efeito e continuou:
   - Ah, ah, ah!  claro que voc percebeu logo o que vem a ser Will Control, no  mesmo? Quer dizer Controle da Vontade!  isso. J imaginou? J pensou no que 
ser controlar a vontade e a iniciativa da humanidade? J imaginou o que ser uma sociedade em que nenhuma ordem, nenhuma instruo venha a ser contestada? No haver 
mais prises, porque os criminosos sero readaptados pela Droga da Obedincia. No haver mais sofrimento, nem ansiedade, nem loucura, nem dor. No haver mais greves, 
nem passeatas de protesto. Nenhum soldado jamais desertar nem se perguntar por que est sendo mandado para a guerra. Obedecer e pronto! No ser mais necessrio 
suspender uma remessa de vacinas ou de adubos para algum pas onde esteja havendo uma revoluo. Com a Droga da Obedincia, no haver mais o desejo de fazer revolues. 
Porque no haver mais desejos de espcie alguma. S o nosso desejo, s a nossa vontade comandando a espcie humana!
   Miguel estava estarrecido. Tinha imaginado uma srie de possibilidades para explicar o desaparecimento dos estudantes. Nunca lhe ocorrera, porm, que os propsitos 
da quadrilha fossem to diablicos!
   - O senhor  um louco! Um louco perigoso! Vocs pretendem destruir a vontade, acabar com os desejos, anular a criatividade dos homens. Ser que vocs no percebem 
que, com isso, estaro destruindo os prprios homens?
   - Ora, Miguel, l est voc novamente olhando as coisas por um lado s. No, meu caro, as coisas so relativas. A verdade tem vrias facetas. Procure olhar do 
nosso lado e ver a maravilha de um mundo de paz, sem conflitos, sem turbulncias. Eu sei que voc dir que s existe uma verdade. Nesse caso, procure entender que 
essa verdade est nas minhas mos!
   - No! A obedincia somente leva  repetio de velhos erros. S o respeito pela liberdade de cada um pode garantir a sobrevivncia da humanidade. S o respeito 
pelas opinies divergentes pode garantir o progresso. S a desobedincia modifica o mundo!
   - O que  isso, Miguel? Que discurso  esse? Ser que voc se esquece de quem voc ? Como lder l no seu colgio, voc no  tambm um autoritrio? No  voc 
quem no admite que suas decises sejam contestadas?
   - Eu...
   - No se envergonhe, meu caro. Voc est certo quando no permite que opinies idiotas prejudiquem a vitria das suas idias superiores.  por isso que eu quero 
convid-lo a unir-se a ns.
   - Unir-me a vocs?
   - Como voc j deve ter imaginado, est em nossos planos selecionar uma elite que,  claro, no tomar a Droga da Obedincia. Ser a elite dos que devem ser obedecidos. 
A elite dirigente, que dar as ordens, que comandar a humanidade. Voc  uma pessoa especial, Miguel. Uma inteligncia privilegiada e um lder como poucos. Por 
isso eu o convido a autocontrolar-se e a assumir o lugar que  seu por direito. Voc foi escolhido entre milhes! Venha comigo comandar o mundo!
   O corao de Miguel disparou dentro do peito. Sua prudncia, porm, o aconselhou a controlar-se. No eram s algumas dezenas de garotos seqestrados que dependiam 
dele. Agora era o futuro da espcie humana que estava em suas mos. Ele tinha de ganhar tempo, tinha de representar.
   - Eu... no sei...  tudo to surpreendente!
   - Posso imaginar sua surpresa, meu caro rapaz. Ns precisamos de lideranas jovens como a sua. Venha ajudar-nos a construir um novo mundo!
   - Um novo mundo...
   - Voc precisa, naturalmente, ver a nossa Droga da Obedincia em funcionamento, no ? Muito bem. Voc vai ver tudo que precisa. Algum vir busc-lo e lhe mostrar 
os testes que estamos realizando. Por agora, eu me despeo. Voltaremos a falar.
   A silhueta apagou-se no vdeo. O garoto estava s. Com todo o peso do mundo sobre os ombros.
   

  24. Z da Silva, perigoso meliante
   
   Naquela quinta-feira a delegacia amanheceu com a costumeira confuso de advogados tentando libertar seus clientes, viaturas manobrando e policiais envolvidos 
com seus afazeres.
   Por isso ningum prestou muita ateno naquele rapazinho de culos que entrava carregando uma pilha de livros.
   - Ei, rapaz! Aonde vai com isso?
   - Mandaram entregar para o delegado.
   - Segundo andar,  direita.
   O plano tinha dado certo. Cal estava dentro da delegacia. Agora era procurar Mrius Casprides, ou melhor, Z da Silva.
   Aquela pilha de livros era um passaporte perfeito. Cal percorreu todas as dependncias da delegacia e, cada vez que percebia algum curioso com a sua presena 
ali, perguntava logo pelo delegado.
   O carcereiro estava morrendo de sono. Seu turno j tinha acabado h duas horas, mas o companheiro que deveria substitu-lo ainda no havia chegado.
   Quando o telefone da carceragem tocou, o carcereiro atendeu de mau humor:
   - Al.
   -  da carceragem?
   - No.  da casa da sua me!
   A voz, do outro lado do fio, ficou furiosa:
   - Veja como fala, seu cretino! Aqui  o doutor Boanerges!
   - Oh! Desculpe, doutor!
   - Mande subir o prisioneiro Z da Silva. Quero interrog-lo na minha sala.
   - Qual Z da Silva, doutor Boanerges? Aqui tem dois.
   - O do assalto ao banco, sua besta!
   - De... Desculpe, doutor.  que eu preciso saber...
   - Voc j est me enchendo. Ou voc faz esse prisioneiro subir em cinco minutos ou eu vou arranjar pra voc dirigir o trnsito em Itaquera!
   - Desculpe, doutor.  pra j, doutor!
   
   * * *
   O guarda chegou com o prisioneiro Z da Silva algemado e bateu na porta do doutor Boanerges.
   - Entre - ordenou uma voz l de dentro.
   Os dois entraram em uma sala vazia. De uma porta trancada, a voz comandou:
   - Deixe o prisioneiro a. Saia, feche a porta e fique montando guarda.
   - Onde o senhor est, doutor? - perguntou o guarda.
   - Estou no banheiro, seu idiota!
   -  que eu no posso...
   - Voc s pode fazer o que eu mandar! Cumpra a ordem, j!
   - S... s... sim, doutor!
   No momento em que a porta da sala foi fechada, o prisioneiro viu, surpreso, um rapazinho sair do banheiro.
   - Casprides? O senhor  o bioqumico Mrius Casprides, eu suponho...
   - Sim, sim, sim, no, no, no! Sou Z da Silva, o perigoso assaltante!
   - Sou amigo, seu Casprides. Tenho uma foto sua. Pode esquecer o seu disfarce. Meu nome  Cal. Precisamos libert-lo!
   O prisioneiro estava apavorado:
   - No, no, no! Eu no quero ser libertado. Sou um perigoso meliante!
   - H muito tempo no se fala mais meliante, seu Casprides. Pode confiar era mim. Ns j sabemos da Droga da Obedincia. Precisamos do senhor para libertar nossos 
amigos, para libertar mais de vinte garotos que esto sendo usados como cobaias para testar a Droga da Obedincia!
   O prisioneiro titubeou:
   - Mais de vinte? Meu Deus!
   - E isso mesmo. S que no temos nenhuma pista de onde estejam os garotos. E no podemos confiar na polcia. Os seqestradores tm policiais fazendo o jogo deles.
   - E onde est o delegado que estava falando l do banheiro?
   - No tem delegado nenhum, seu Casprides. Era eu. Uma das minhas especialidades  imitar vozes. O delegado que ocupa esta sala telefonou para c dizendo que 
vai se atrasar. Sorte que quem atendeu fui eu. Assim, foi fcil imitar a voz dele para trazer o senhor at esta sala. Vamos, seu Casprides! Confie em mim! No temos 
muito tempo. Dois dos rapazes j foram assassinados!
   - Assassinados?! No  possvel! Tudo culpa minha!
   - Culpa sua? Por qu?
   - Fui eu que criei a Droga da Obedincia. Mas eu no pretendia... eu no queria...
   - Sabemos disso. Sabemos que o senhor fugiu porque estava contra o uso da droga, certamente. Mas precisamos do senhor para saber onde esto os estudantes desaparecidos.
   - Devem estar l na Pain Control...
   Nesse momento, a porta da sala se abriu e o detetive Rubens entrou:
   - Pain Control? O que  isso?
   
   * * *
   - No se assustem - acalmou o detetive Rubens, fechando a porta. - Ouvi tudo l de fora. Ouvi tambm quando voc disse que h policiais envolvidos com os seqestras, 
garoto. Mas eu no sou um deles. Tambm estou desconfiado de que h cmplices dos bandidos dentro da prpria polcia. Mas ainda h policiais honestos, meus amigos. 
Fiquem tranqilos. Vamos pegar a quadrilha inteira!
   - H um policial gordo, careca... - comeou Cal a informar.
   - O Andrade?
   - Esse. Disseram para no confiar nele. O detetive cocou o queixo:
   - Andrade, hein? Eu bem que estava desconfiado! Bom, se Andrade  um dos bandidos, toda a cautela  pouco. Preciso tirar vocs dois daqui. Vamos sair num camburo. 
Tenho amigos em outra delegacia. Vou usar os policiais de l para estourar a tal Pain Control e libertar os garotos. Venham comigo!
   Rubens tirou um par de algemas da cintura:
   - Desculpe, garoto. Seu nome  Cal, no ? Desculpe, mas  melhor eu levar voc algemado tambm. Assim ningum vai desconfiar quando eu colocar os dois dentro 
do camburo.
   - Est bem - concordou Cal. Delicadamente, o detetive Rubens algemou o rapaz.
   Os trs saram pelo corredor. O detetive Rubens foi empurrando os dois "prisioneiros", exatamente como costumam fazer os policiais.
   Enquanto o velho elevador descia para a garagem, o detetive Rubens tirou um chaveiro do bolso e ficou brincando com ele. O chaveiro fazia um barulhinho ritmado, 
irritante...***
   Na garagem da delegacia, o detetive Rubens fez Cal e o bioqumico Casprides entrarem num camburo, e fechou a porta, trancando-os no lugar destinado aos prisioneiros.
   Cal ouviu o detetive dar a partida no carro e, de repente, descobriu que tinha cado numa armadilha:
   - Ei! Ele nem perguntou o endereo da Pain Control\ Que estpido que eu fui! O maldito detetive  um dos bandidos!
   Mas era tarde demais. Estavam presos no interior do camburo como um par de criminosos.
   
   * * *
   O camburo saiu sacolejando e teve de dar uma brecadinha no atropelar um casal de mendigos esfarrapados.
   
   * * *
   O detetive Andrade estava furioso. Suado, j quela hora da manh, h trs noites sem dormir, agarrou um guarda pela gola:
   - Como? O Rubens saiu dirigindo um camburo? E levou o prisioneiro Z da Silva com ele?
   - Foi - explicou o guarda. - E levou tambm um prisioneiro jovem, algemado...
   - Inferno! -berrou Andrade, correndo para a rua e trombando espetacularmente com o casal de mendigos.
   
   

  25. Dois Karas  melhor do que um s
   
   Depois que a silhueta do Doutor Q.I. desapareceu, Miguel ficou um longo tempo com os olhos pregados no vdeo apagado do intercomunicador. Ele no sabia se era 
dia ou noite, pois no tinha idia de quanto tempo permanecera cloroformizado. Ainda sentia enjos, mas agora tinha vontade de vomitar pelo que acabara de ouvir.
   Uma sociedade de formigas obedientes! Era isso que estava reservado  espcie humana com a Droga da Obedincia. E ele, Miguel, talvez fosse o nico que podia 
fazer alguma coisa contra aquela barbaridade. Mas, o que fazer? Estava trancado naquele quarto, como numa priso!
   Tempo! Era s nisso que ele conseguia pensar. Precisava ganhar tempo e tentar uma virada na situao. Mas ele estava sozinho. Se, pelo menos, ele tivesse os Karas 
consigo...
   Trouxeram uma bandeja com uma farta refeio. Miguel nem tocou nos alimentos. Recostou-se na cama e pensou. Talvez
   houvesse uma esperana se ele pudesse fingir que aceitava o jogo do fantico Doutor Q.I. Talvez...
   Exausto, o lder dos Karas adormeceu.
   
   * * *
   Acordou com a tenebrosa silhueta do Doutor Q.I. dando-lhe um "bom-dia" que prometia ser pssimo.
   - Venha, Miguel. Agora voc vai conhecer o comeo de uma nova era!
   Guiado por um dos empregados, Miguel percorreu as dependncias da Pain Control. O empregado pouco tinha o que falar, pois em cada dependncia havia um intercomunicador 
cujo vdeo se acendia logo que eles entravam, mostrando a silhueta do Doutor Q.I., que dava as explicaes necessrias.
   - Esta  a unidade-piloto de produo da Droga da Obedincia, Miguel. Estamos produzindo a droga em diferentes apresentaes: em comprimidos, em p e at na forma 
de cigarros. Dentro de um ms, j estaremos prontos para sair da fase de testes.
   - E qual ser a prxima fase, Doutor Q.I.?
   - Vamos comear pelas escolas. Estamos preparando uma equipe de jovens para oferecer a Droga da Obedincia em todas as escolas. Dentro de pouco tempo, teremos 
controlado toda a juventude do mundo. O resto ser fcil.  uma questo de tempo. Logo teremos o controle das mentes, das vontades, das iniciativas. E a Will Control 
dominar o mundo!
   
   * * *
   Miguel acompanhou o empregado, e a figura do Doutor Q.I. continuou a persegui-los, aparecendo aonde quer que eles fossem.
   - Este  o ginsio dos testes de resistncia fsica. Veja o que j conseguimos com as cobaias.
   O empregado entregou uma tabela ao rapaz.
   - Na primeira coluna desta tabela que voc tem nas mos esto os recordes mundiais - explicava a voz metlica do Doutor Q.I. - Na segunda, esto as marcas conseguidas 
pelas cobaias sob o efeito da Droga da Obedincia. Como voc pode ver, Miguel, todas as cobaias superaram os recordes, e duas delas conseguiram vinte centmetros 
a mais no salto em altura!
   Correndo sobre uma esteira rolante, uma garotinha, a cobaia nmero 14, no apresentava qualquer expresso humana. Parecia um boneco de cera que sabia correr.
   - Esta cobaia est correndo h vinte horas, Miguel. Sem apresentar sinal de cansao nem diminuir o ritmo. Ela conseguiu fazer os 42 quilmetros da maratona em 
apenas uma hora e cinqenta! Quase meia hora abaixo do recorde mundial!
   A voz demonstrava um orgulho imenso:
   - Sabe o que isso significa, meu caro? Significa que, sob a ao da Droga da Obedincia, as pessoas perdem o medo, o sentido de autopreservao que diminui sua 
capacidade fsica. Com a Droga da Obedincia, ns estamos criando super-homens!
   - E a capacidade intelectual, Doutor Q.I.? E a capacidade criativa?
   - Isso tudo desaparece, Miguel. Mas para que queremos criatividade? Para que queremos iniciativa? Isso compete a ns, a elite dirigente. Compete a voc, que agora 
faz parte dessa elite!
   Miguel sentiu vontade de chorar: sentado no meio das cobaias, com a mesma expresso esttica dos outros, estava Chumbinho. Pobre menino! Tudo por causa de Miguel...
   Mas, o que era aquilo? A mo esquerda do menino abriu-se e fechou-se numa frao de segundo. Ningum percebeu o movimento, mas Miguel pde ler um K desenhado 
na palma da mo de Chumbinho!
   Ento Chumbinho no estava sob o efeito da droga! Estava representando!
   "No estou mais sozinho!", pensou Miguel.
   Agora alguma coisa poderia ser feita. E o lder dos Karas no perdeu tempo. A visita quela unidade da Pain Control tinha terminado e ele acompanhou o empregado 
at  porta.
   - O senhor primeiro - disse Miguel, educadamente.
   No momento em que o homem saiu, Miguel rapidamente bateu a porta e fechou-a por dentro.
   Ei! Que negcio  esse? Abra! Abra essa porta!
   De fora, vinham batidas furiosas na porta. De dentro, atravs do intercomunicador, vinha a voz calma do Doutor Q.I.:
   - Ora, ora, ora, Miguel! Pelo que vejo, e como eu desconfiava, minha oferta foi recusada, no ? Que pena! Vai ser uma lstima ter de eliminar um rapaz como voc!
   - Vai ter de me pegar primeiro, Doutor Q.I.!
   - E voc acha que isso  difcil? Voc prendeu a si mesmo dentro dos meus domnios! Que ingenuidade! Eu esperava mais de voc. Voc acha que essa porta vai resistir 
muito? Voc acha que...
   No deu para ouvir o resto. Num salto, Miguel arrancou o fio que ligava o intercomunicador  tomada. O vdeo apagou-se. Chumbinho parou de representar e correu 
para o amigo:
   - Miguel!
   - Chumbinho!
   Os dois abraaram-se, e a fora de um aumentou o nimo do outro.
   - Chumbinho, como  que voc ficou esse tempo todo aqui, sem tomar a droga?
   - No foi difcil. Eu fiz como sempre fao quando a mame vem me dar aquelas plulas de vitamina. Eu deixo embaixo da lngua, finjo que engulo e depois cuspo 
fora!
   Do lado de fora, batidas fortes mostravam que os bandidos estavam tentando arrombar a porta a marretadas.
   - Preste ateno, Kara, porque aquela porta no vai resistir por muito tempo. Tudo aqui depende da energia eltrica, at mesmo a fiscalizao do Doutor Q.I. Nossa 
sada  desligar tudo. Vamos fazer o seguinte...
   Chumbinho prestou ateno no que dizia o lder dos Karas. O plano j estava pronto quando a porta do ginsio cedeu com um estrondo.
   
   
26. Mocinhos e bandidos
   
   
   - Me larga, seu gorila! Me solta!
   - Fique quieta, menina! Eu no quero lhe fazer mal!
   A gordura do detetive enganava muito. Andrade era forte como poucos. Tinha agarrado o jovem mendigo com uma das mos e a garota mendiga com a outra. Por mais 
que se debatessem, os dois esfarrapados no conseguiam soltar-se.
   - Fiquem quietos! No tenham medo! Eu sei quem vocs so! - berrava o detetive.
   - Sabe nada! - berrava de volta o mendigo. - Ns somos dois pobres mendigos. No fizemos nada! O senhor no pode prender a gente!
   - Eu no estou prendendo ningum. Vocs so dois dos estudantes seqestrados, no so? Voc  a Magr e voc  o Crnio! Esse disfarce no engana meu faro de 
detetive. Quero falar com vocs. Fiquem quietos!
   Andrade arrastou os dois para uma sala e fechou a porta.
   - Voc! - acusou a menina. - Voc  da quadrilha de seqestradores! No se aproxime de mim!
   - Magr! Crnio! -suplicou o detetive. -Eu no sou nada disso. Confiem em mim!
   - No! Voc  o inimigo! - berrou Magr. - Eu quero o detetive Rubens! Exijo falar com o detetive Rubens!
   Andrade balanou a cabea:
   - Vocs no sabem a diferena entre mocinhos e bandidos! Pois saibam que o detetive Rubens acaba de sair daqui seqestrando o prisioneiro Z da Silva e um rapazinho, 
que eu nem sei quem !
   - Cal? Seqestraram o Cal? - surpreendeu-se Crnio.
   - Era o Cal? - assombrou-se mais ainda Andrade. - O outro seqestrado? Mas, afinal, vocs trs foram ou no foram seqestrados?
   Foi a que Crnio percebeu o erro que os Karas tinham cometido. Ao se fazerem de seqestrados, eles tinham se acusado para a quadrilha! Os bandidos seriam os 
nicos a saber que eles no haviam sido seqestrados. E, se Andrade pensava que eles faziam parte dos desaparecidos, ento Andrade era inocente! Diabo! Miguel tinha 
errado outra vez!
   - Ele tem razo, Magr - concluiu Crnio, segurando a menina enfurecida. - Ele  amigo. Miguel enganou-se. O bandido  o Rubens. Cal caiu numa armadilha!
   
   * * *
   Crnio e Magr contaram para Andrade tudo o que sabiam. E eles sabiam agora que, alm de Chumbinho, Miguel e outros garotos, Cal e Mrius Casprides tambm estavam 
nas mos da quadrilha.
   - Quer dizer que esse tempo todo eu tive aqui, na delegacia, a nica pista do mistrio? - perguntou Andrade.
   - Pois  - confirmou Magr. - Eu ouvi a conversa dos bandidos falando da fuga de Mrius Casprides e da priso de um tal Z da Silva. Depois Crnio teve o palpite: 
analisando a conversa que eu tinha ouvido, descobriu que as duas pessoas eram uma s!
   - No foi uma questo de palpite - consertou Crnio. - Foi uma questo de lgica.
   Andrade andava de um lado para o outro:
   - Certamente Rubens levou Cal e Casprides para o mesmo lugar onde esconderam os outros.
   Magr sorriu tristemente:
   - O problema  saber onde fica esse lugar...
   Crnio fez aquela cara triunfante que sempre fazia quando tinha uma idia brilhante:
   -Acho que temos um jeito de saber...
   -Que jeito  esse? Fala logo!
   
    * * *
   quela hora, a rua onde morava o bioqumico Mrius Casprides j estava movimentada.
   Numa esquina, trs homens corpulentos discutiam dentro de um carro preto estacionado:
   - ... a gente estava quase pegando o sujeito, quando o tal assaltante de banco...
   - O Z da Silva.
   - . O Z da Silva.
   - E a?
   - A a gente foi em cana.
   - ...
   - Pense! Precisamos pensar!
   - T com muito sono pra pensar!
   Um rapaz todo esfarrapado passou correndo ao lado do carro e jogou um papel l dentro. Em um segundo, o rapaz j tinha desaparecido.
   - O que  isso? - perguntou o Animal.
   - Um papel - respondeu o Coisa.
   - E claro que  um papel, seu idiota!- reclamou o Fera. - D aqui!
   O Fera abriu o papel, que estava dobrado em dois.
   -  um bilhete!
   - E o que  que est escrito? - perguntou o Coisa.
   - Hum... deixa ver... - resmungou o Fera. - Leia voc, que eu estou sem culos.
   - Mas voc no usa culos...
   - Ento preciso usar. Leia!
   O Coisa pegou o bilhete. Limpou a garganta com um pigarro e ficou olhando para o papel.
   - T com muito sono pra ler!
   O Animal perdeu a pacincia e arrancou o bilhete da mo do Coisa:
   - D isso aqui. Eu leio. Est escrito: O chefe quer ver vocs imediatamente. Corram!
   - O chefe? Deve ser o Doutor Q.I.!
   -  claro que s pode ser o Doutor Q.I., seu burro! Que outro chefe ns temos?
   - Aqui diz corram. Acho melhor a gente andar logo! O Fera deu a partida no carro preto.
   No notou que estavam sendo seguidos por outro carro com um homem gordo ao volante e dois jovens mendigos.
   
   
   

  27. De preferncia, mortos!
   
   A porta do ginsio de testes de resistncia fsica da Pain Control foi arrombada com estrondo e os empregados do Doutor Q.I. entraram, empurrando-se uns aos outros.
   Vinda do intercomunicador que havia do lado de fora, Miguel ouvia a voz do Doutor Q.I.:
   - Peguem esse Miguel! Quero ele vivo!
   O lder dos Karas comeou a correr pelo ginsio, no meio dos aparelhos de ginstica e dos meninos-cobaias, desviando-se dos perseguidores com uma agilidade que 
eles nunca tinham visto!
   - Pega!
   - No deixa escapar!
   No meio daquela algazarra, os empregados no prestaram a menor ateno s cobaias, que estavam imveis, aguardando ordens. S a pobre menina que havia batido 
o recorde da maratona continuava correndo sobre a esteira rolante.
   Havia, porm, mais um que no estava imvel. Era Chumbinho, que, de acordo com o plano que combinara com Miguel, aproveitou a confuso e esgueirou-se silenciosamente 
para fora.
   Arrastou-se colado  parede, por baixo do intercomunicador, de modo que a objetiva do aparelho no pudesse focaliz-lo. Desapareceu por uma porta lateral.
   O intercomunicador, l na sala do Doutor Q.I., estava sintonizado somente no corredor que dava para o ginsio de testes, por causa da confuso propositalmente 
armada por Miguel. Assim, Chumbinho pde correr com tranqilidade pelo resto da Pain Control, pois todos os outros intercomunicadores estavam apagados e todos os 
empregados tinham corrido para o ginsio de testes.
   As dependncias onde estava sendo testada a Droga da Obedincia s tinham janelas lacradas e opacas, para que ningum pudesse ver o que se passava l dentro. 
Assim, a iluminao era toda artificial.
   Por isso Chumbinho tinha de encontrar e desligar a chave central de energia eltrica.
   Nesse momento, uma porta  sua frente foi aberta, e o menino tomou um susto:
   - Cal! E o senhor  o bioqumico que eu vi falando com... Ei! Por que vocs esto algemados?
   - Fuja, Chumbinho! - ordenou Cal.
   Mas era muito tarde. Por trs dos dois surgiu o detetive Rubens, apontando um revlver para o garoto.
   - Quietinho a, menino! Seno leva chumbo!
   Mas Rubens no conhecia os Karas. Se conhecesse, jamais iria distrair-se da guarda de um deles para apontar uma arma para o outro: com as mos algemadas, Cal 
aproveitou-se e golpeou, de baixo para cima, o brao estendido de Rubens!
   A bala foi cravar-se no teto e, ato contnuo, Cal meteu uma cotovelada no estmago do detetive.
   A arma voou longe e, quando Rubens recuperou o flego, viu um cano apontado para sua testa. Era Chumbinho, que, rpido como um gato, havia se apoderado do revlver:
   - Quietinho, voc, seu bandido! - vingou-se Chumbinho, com muita raiva na voz. Ele se lembrava daquela cara na sala do diretor do Colgio Elite e, ao contrrio 
de Miguel, no tinha simpatizado com ela desde o incio.
   - Grande, Chumbinho! -aplaudiu Cal, revistando os bolsos de Rubens, em busca da chave das algemas.
   - Sim, sim, sim! -sorriu Casprides. -Que meninos valentes!
   - Vocs no vo escapar... -comeou a ameaar Rubens.
   -Cala a boca, traidor! - Cal tirou as algemas de seus pulsos, libertou tambm o bioqumico, mas, no momento em que se preparava para algemar o detetive traidor...
   - O que est acontecendo aqui?
   Na moldura da porta, apareceram trs figuras enormes, ameaadoras:
   -Detetive Rubens! - estranhou o Animal. - O que  que o senhor est fazendo a no cho?
   - Rpido, idiota! Me ajude! Esses moleques...
   - No podemos fazer nada, seu Rubens... - lamentou-se o Coisa.
   - Estamos sem as nossas armas - informou o Fera.
   Os trs foram empurrados para dentro, e o detetive Andrade entrou de arma na mo, logo seguido por um jovem casal de mendigos.
   - Crnio! Magr!
   - Cal! Chumbinho!
   - Cad Miguel?
   - Est na boca do lobo! - respondeu Chumbinho. - A essa hora j deve ter sido preso. Est no ginsio de testes, s voltas com mais de vinte empregados do Doutor 
Q.I.!
   - Onde fica isso? - perguntou Andrade. - Vamos l!
   - No adianta! Eles esto armados e podem pegar os meninos-cobaias e Miguel como refns. Mas Miguel teve uma idia. Eu estava tentando fazer o que ele mandou 
quando apareceram Cal, Casprides e esse maldito traidor!
   Algemaram Rubens ao Fera, o Fera ao Coisa, o Coisa ao Animal e o Animal  maaneta da porta, usando as algemas que tinham estado em Cal e Casprides e mais duas 
que Andrade trazia consigo.
   - Vamos! Temos de encontrar a chave da energia eltrica!
   
   ***
   Miguel correu pelo ginsio, driblou os perseguidores o quanto pde, resistiu o maior tempo possvel, mas acabou sendo capturado e subjugado pelos empregados. 
A uma ordem do Doutor Q.I., um dos bandidos ligou novamente na tomada o intercomunicador do ginsio de testes. A voz do sinistro personagem, novamente dentro do 
ginsio, estava calma, confiante:
   - Que brincadeira mais boba, Miguel! Eu pensava que voc fosse capaz de agir com mais inteligncia. De que adiantou correr como um ratinho? De que adiantou... 
Ei! Onde est a cobaia nmero 20? Diabo, Miguel! Voc estava s ganhando tempo enquanto seu amiguinho fugia, no ? O nmero 20  aquele que estava sem tomar a droga!
   Furioso, investiu contra os empregados:
   - Vocs so todos uns incompetentes! Deixaram o garoto engan-los o tempo todo!
   - Mas ns... - tentou desculpar-se um dos empregados.
   - Cale a boca! Deixem que eu descubro o moleque pelo intercomunicador.
   As telas dos intercomunicadores espalhados por toda a Pain Control acenderam-se uma a uma. O Doutor Q.I. procurava Chumbinho.
   - O que  isso?
   Na tela do Doutor Q.I. apareceu um longo corredor, no fim do qual, algemados a uma porta, estavam o detetive Rubens e os trs ferozes seguranas da Pain Control, 
presos um ao outro, formando uma estranha fila, como crianas grandes, de mos dadas.
   - Estpidos! Incompetentes! -berrou o Doutor Q.I. - Os inimigos entraram na Pain Control!. A cobaia 20 no poderia algemar sozinha esses incompetentes. Preciso 
descobrir onde esto os invasores!
   O Doutor Q.I. continuou freneticamente a ligar e desligar os intercomunicadores,  procura dos inimigos.
   - A esto! O Casprides est com eles! Maldito! Acho que pretendem chegar  casa de fora! - concluiu o Doutor Q.I. ao ver o detetive Andrade, o bioqumico e 
os quatro Karas correndo por um corredor. - Depressa! Dois de vocs fiquem a, tomando conta de Miguel. O resto corra atrs deles! Se eles desligarem a fora, estaremos 
perdidos! Eu quero todos eles vivos ou mortos. De preferncia, mortos!
   Os bandidos conheciam muito bem a planta da Pain Control e seu labirinto de corredores. Logo os fugitivos estavam cercados e com o acesso  casa de fora cortado.
   -Eles so muitos! No vamos escapar! - gritou Andrade
   vendo o grande nmero de bandidos que se aproximava de armas na mo.
   - Sim, sim, sim, no, no, no! -lembrou Mrius Casprides. - Venham comigo!
   O bioqumico abriu a porta de um laboratrio e todos comearam a entrar.
   Um dos bandidos, vendo que no os alcanaria a tempo, ergueu a arma, fez pontaria e atirou.
   O tiro reboou altssimo dentro do ambiente fechado da Pain Control. S restava um dos fugitivos fora da porta do laboratrio.
   Era Chumbinho. Seu corpinho deu um tranco e o menino caiu para trs.
   - Chumbinho! No! - gritou Magr antes que a porta se fechasse.
   
   * * *
   Dentro do laboratrio, protegido por uma grossa porta corta-fogo, a confuso era geral:
   - Chumbinho! Que horror! Ele foi baleado! Cal tentou acalmar a menina:
   - Talvez esteja apenas levemente ferido, Magr!
   - Levemente ou gravemente ferido, no h o que a gente possa fazer pelo Chumbinho agora, a no ser tentar sair desta! Depressa, gente! - convocou Crnio. - Tive 
uma idia. Precisamos de fumaa, muita fumaa! Vamos queimar...
   - Fumaa? - interrompeu Casprides. - No  preciso queimar nada. Posso misturar alguns produtos qumicos e...
   - timo! Onde est o alarma de incndio?
   Todos entenderam imediatamente o plano de Crnio. Magr correu e acionou o alarma de incndio. No mesmo instante, uma
   sirene altssima disparou. Eles sabiam que uma indstria moderna como aquela deveria ter o alarma de incndio ligado diretamente com o corpo de bombeiros. Era 
a ltima esperana!
   A porta que os protegia era reforada, como deve ser em um laboratrio que trabalha com produtos perigosos e explosivos. Mas aquela no agentaria por muito tempo: 
do lado de fora, os bandidos haviam arranjado marretas e machados e golpeavam a porta sem d nem piedade.
   Cal agarrou um pesado banco e atirou-o contra a janela opaca e lacrada do laboratrio. O vidro estilhaou-se com estrondo. Agora havia por onde sair a fumaa 
que o bioqumico comeava a provocar.
   Com a ajuda de Crnio, Casprides misturou vrios produtos e logo grossos rolos de fumaa negra saam pela janela quebrada do laboratrio.
   
   

  28. A capacidade de desobedecer
   
   No ginsio de testes, imobilizado pela ameaa de dois revlveres, Miguel viu que alguma coisa diferente estava acontecendo com a menina que corria sobre a esteira 
rolante.
   Um brilho de conscincia passou pelos olhos dela, e a menina diminuiu o ritmo da corrida. Mas, como a esteira continuou rolando, ela foi arrastada para trs e 
atirada ao cho.
   - Que foi isso? - espantou-se um dos empregados.
   Aos poucos, um a um, os meninos-cobaias comearam a sacudir a cabea, a esfregar os olhos, a olhar espantados em volta.
   - Onde estou?
   - Que tontura!
   - O que est acontecendo?
   O empregado bateu a mo na testa:
   - Inferno! Com a confuso, esquecemos de dar o reforo da droga para as cobaias!
   -  mesmo! - concordou o outro. - Elas esto despertando!
   Miguel levantou-se corajosamente:
   - Quietinho a, rapaz! No se mexa! - gritou o primeiro, com a arma apontada.
   Sem temer um tiro pelas costas, Miguel voltou-se para os rapazes e moas que estavam despertando do efeito da Droga da Obedincia:
   - Pessoal! Vocs foram seqestrados. Foram enganados e foram usados pela mais sinistra das quadrilhas!
   Os bandidos estavam nervosos:
   - Cala a boca, rapaz! Olha que eu atiro!
   Miguel sentiu o cano frio da arma encostar-se em sua nuca. Mas continuou falando, com calma, escolhendo as palavras:
   - Todos vocs ficaram vrias semanas sob o efeito da Droga da Obedincia, que anulou a inteligncia de vocs e transformou todos em robs imbecilizados!
   Os meninos e meninas olhavam-se uns aos outros, como se fosse difcil acreditar no que estavam ouvindo.
   Naquele instante, o Doutor Q.I. desviou a ateno do corredor em frente ao laboratrio onde estavam os fugitivos e ligou seu intercomunicador com o ginsio de 
testes.
   - O que est havendo a? Diabo! Seus incompetentes! Faam esse garoto calar a boca!
   Mas, dessa vez, os dois bandidos eram muito pouco frente  fria de dezessete garotos, que j tinham tomado conscincia das palavras de Miguel. Saltaram decididamente 
contra os dois, aos trancos e cabeadas, arrancaram seus revlveres e os imobilizaram, praticamente sentando em cima deles!
   A voz do Doutor Q.I. vinha alta e furiosa:
   - Miguel! Voc no entende o que est fazendo? Voc est destruindo a realizao do maior sonho da humanidade! A obedincia absoluta! Pare! Pense um pouco! Voc 
no pode fazer isso! Voc est destruindo sculos de sonhos! Voc est destruindo o futuro!
   Miguel parou em frente ao intercomunicador:
   - No! Eu estou salvando o futuro! O que eu estou destruindo  um sonho louco de dominao da humanidade, de controle da mente humana!
   - Eu s entendo que a minha capacidade de criticar tudo o que ouo e vejo e a minha capacidade de contestar tudo o que descubro de errado  que fazem de mim um 
ser humano! E a minha capacidade de desobedecer que faz de mim um homem!
   - Voc poderia ter se juntado a mim! Poderia construir um mundo novo!
   - Eu vou construir um mundo novo! Esteja certo disso. Mas nesse mundo no haver lugar para pessoas como voc!
   O vdeo do intercomunicador apagou-se.
   
   * * *
   Vrias sirenes foram ouvidas do lado de fora e, em poucos minutos, um grupo de bombeiros apareceu por trs dos bandidos, justamente no momento em que a porta 
do laboratrio vinha abaixo.
   - O que est se passando por aqui? - perguntou o bombeiro que vinha  frente, de olhos arregalados.
   Os bandidos voltaram-se e apontaram as armas na direo dos bombeiros.
   Naquele instante, todas as luzes se apagaram.
   
   * * *
   Na escurido total, os bandidos no atiraram, pois no havia como enxergar qualquer alvo. No sabiam o que fazer. Atirar a esmo? Nunca tinham agido pelas prprias 
cabeas e esperavam desesperadamente uma ordem do chefe supremo da Pain Control.
   - Doutor Q.I.! Doutor Q.I.! O que faremos? - gritou um deles para a escurido.
   Na escurido, a voz cavernosa do Doutor Q.I. ressoou acima de todos eles:
   - No adianta comear uma guerra no escuro. No adianta atirar nos bombeiros. Vocs vo acabar acertando uns aos outros. Nada mais adianta. Fomos derrotados. 
Entreguem-se!
   Os bandidos tentaram entreolhar-se, para decidir o que fazer. Mas, no escuro total, isso era impossvel. E, se at a liderana brutal do Doutor Q.I. tinha desistido, 
no havia mais por que oferecer qualquer resistncia. Ouviu-se o rudo das armas caindo no cho, em obedincia  ordem da voz cavernosa.
   No mesmo instante as luzes acenderam-se e iluminaram as caras assombradas dos bandidos, cercados de um lado do corredor pelos bombeiros, e do outro pelo detetive 
Andrade, Magr, Cal, Crnio e Casprides.
   Andrade assume o comando da situao:
   - Quietos, todos vocs! Mos na cabea!
   Os bandidos obedeceram e baixaram as cabeas, derrotados.
   - Garotos! -ordenou o detetive. -Peguem as armas desses bandidos!
   Crnio, Magr e Cal executaram a ordem. O chefe dos bombeiros deu um passo  frente:
   - Que loucura  essa? Posso saber o que est acontecendo por aqui?
   Andrade no deixou a surpresa durar mais:
   - Sejam bem-vindos, amigos. Sou o detetive Andrade. Como vocs podem ver, aqui no houve nenhum incndio. Houve muito mais do que um incndio... Mas, antes de 
mais explicaes, ser que vocs podiam dar uma forcinha aqui na priso deste bando de criminosos?
   Os bombeiros ajudaram a empurrar os bandidos para dentro de uma sala, onde eles ficariam bem trancadinhos at  chegada de reforo policial.
   Por entre o grupo de bombeiros que empurrava os bandidos, uma carinha sorridente apareceu:
   - Oi, pessoal! Tudo est sob controle agora? Magr deu um grito:
   - Chumbinho! Voc no est morto!
   -  claro que no estou! - explicou o menino, com a cara mais sapeca do mundo. - Eu s fingi que fui atingido pelo tiro. Assim esses trouxas nem ligaram pra mim 
e ficaram tentando derrubar a porta. Eu fui saindo de fininho... Era a nica maneira de continuar a procurar a casa de fora!
   O bioqumico Mrius Casprides surpreendia-se cada vez mais:
   - Sim, sim, sim! Ento foi voc que apagou as luzes?
   -  claro que fui!
   - Sim, sim, sim, mas que valentia!
   Magr, ainda saboreando o alvio de reencontrar Chumbinho so e salvo, lembrou-se que o grupo ainda estava incompleto:
   - E Miguel? Vamos libertar Miguel!
   Nem bem a menina acabava de falar, o lder dos Karas aparecia abrindo caminho atravs do grupo de bombeiros, seguido por todos os meninos-cobaias.
   * * *
   Um grande silncio. H trs dias os Karas no se reuniam, e a tenso daquela aventura tinha sido de esfrangalhar os nervos de qualquer um. Mesmo que esse algum 
fosse um Kara!
   E todo aquele suspense explodiu num grito de desabafo, de saudade, de carinho:
   - Miguel!
   Com os trapos de mendiga esvoaando, Magr correu para o amigo e abraou-se a ele, bem apertado, como se fosse uma despedida.
   - Miguel, meu querido!
   O outro "mendigo" baixou a cabea e disfarou o cime, mexendo nos farrapos da cala, como se quisesse ajeitar um vinco imaginrio.
   Andrade sorria, participando de toda aquela alegria, de todo aquele alvio:
   - Ufa! Terminou! Ainda bem que tudo se resolveu sem derramamento de sangue! Nem sei o que poderia acontecer se o Doutor Q.I. no tivesse desistido e... Ei! Esperem 
um pouco: como  que o Doutor Q.I. pde dar a ordem de rendio pelo intercomunicador se a energia eltrica estava desligada?
   Cal abriu o mais orgulhoso sorriso:
   - E quem disse que o Doutor Q.I. se rendeu? A voz que vocs ouviram era a minha, imitando o safado!
   - Sim, sim, sim! Esses meninos so mesmo demais! Andrade fez uma festinha muda na cabea de Cal, desmanchando-lhe os cabelos.
   - Por falar em Doutor Q.I., cad ele? - lembrou o Chumbinho.
   - Onde fica a sala do Doutor Q.I., seu Casprides? - perguntou Miguel.
   - No sei. Ns s vamos o Doutor Q.I. pelo intercomunicador...
   - Ento vamos procurar, pessoal! - comandou Miguel.
   
   * * *
   Mas foi intil. Por mais que vasculhassem a Pain Control de cima a baixo, no foi possvel encontrar o Doutor Q.I. O tenebroso personagem que pretendia dominar 
o mundo com a Droga da Obedincia tinha desaparecido sem deixar rastro. Com ele se evaporava tambm aquele sonho louco, aquele pesadelo ameaador..
                 
   
   

  29. E o Doutor Q.I.?
   
   O detetive Andrade tinha ficado de boca aberta:
   - Mas como, Miguel? Como eu posso deixar vocs fora disso? Voc, Chumbinho, Magr, Cal e Crnio foram os verdadeiros detetives que desmascararam a quadrilha 
da Droga da Obedincia. Vocs so heris de verdade! A imprensa precisa saber disso. Todo mundo precisa saber disso!
   Enquanto esperavam a chegada dos carros da polcia para levar os bandidos da Pain Control, Miguel negava com firmeza:
   - Por favor, detetive Andrade. Ns no queremos que ningum fique sabendo da nossa participao nesse caso. Queremos ficar na sombra. A glria deve ser toda sua. 
Diga que ns fomos seqestrados como os outros garotos e que o senhor nos salvou a todos. No queremos aparecer.
   - Mas por qu?
   - Temos nossas razes. Por favor, no pergunte quais so.
   
   ***
   Andrade tinha sido obrigado a concordar. Por isso, desde o dia anterior at  manh daquela sexta-feira, cinco dias depois que Miguel tinha convocado os Karas 
para a emergncia mxima, a imprensa de todo o pas estava fazendo um estardalhao nunca visto em torno de Andrade.
   Era o heri que todos aplaudiam. O crebro dedutivo que, "sozinho", havia descoberto a pista daqueles seqestros to misteriosos. O policial destemido que, sem 
a ajuda de ningum, havia penetrado no covil dos raptores e prendido a quadrilha toda. Mais de vinte bandidos!
   Era a glria da polcia de So Paulo. O servidor dedicado, cujo herosmo apagava a vergonha que o corrupto detetive Rubens causara a todos os policiais.
   Andrade recusou todas as homenagens. Tinha cumprido com o seu dever e no queria bajulaes. J estava envolvido com outro caso e no tinha tempo para nada. A 
nica entrevista no-oficial que aceitou conceder foi quando o professor Cardoso, o diretor do Colgio Elite, convocou-o para uma reunio na sala da diretoria.
   Enquanto atravessava o ptio do Elite, Andrade viu-se cercado pela garotada e teve de conceder autgrafos como se fosse um artista de cinema. Assim, quando entrou 
na sala do professor Cardoso, o gordo detetive estava suado, enxugando a careca com seu leno amarrotado.
   - Bem-vindo ao Elite, detetive Andrade! -cumprimentou o diretor, caminhando at o policial e abraando-o calorosamente.
   Na sala j se encontravam os heroizinhos annimos Miguel, Crnio, Chumbinho, Cal e Magr, todos com carinhas de inocentes colegiais indefesos. Andrade olhava 
para eles e sentia um n na garganta: queria que eles fossem seus filhos, gostaria de poder colocar no colo cada um deles. Na verdade, Andrade sentia como se eles 
j fossem seus filhos.
   - Sente-se, meu caro Andrade - convidou o professor Cardoso. - Nosso colgio ser eternamente agradecido ao senhor. Afinal de contas, o Elite foi o mais atingido 
de todos os colgios. Seis alunos daqui foram seqestrados, enquanto somente dois garotos desapareceram de cada um dos outros colgios. O terceiro de cada um dos 
colgios era sempre o mesmo Bino, no ? Infelizmente um dos nossos alunos foi assassinado. Mas os outros cinco esto aqui.
   O professor Cardoso fez uma pausa. Caminhou at os cinco Karas e ps a mo no ombro de Miguel.
   - Temos muito a agradecer ao senhor, detetive Andrade. Por isso Miguel, como presidente do Grmio do Colgio Elite, pediu-me que convocasse esta reunio. Ele 
tem um pequeno discurso de agradecimento para o senhor, que expressa o que todos ns sentimos.
   Miguel levantou-se sorrindo jovialmente, como se fosse o orador da turma em festa de formatura.
   - Obrigado, professor Cardoso. Sinto-me honrado e extremamente aliviado por estar, neste momento, encarregado de dirigir estas breves palavras ao nosso querido 
heri, o detetive Andrade.
   Logo Miguel? Fazendo um discurso careta como aquele? Andrade no conhecia o rapaz profundamente, mas o tinha visto em combate: tratava-se de um lder de poucas 
palavras e muita ao. Andrade sentiu-se pouco  vontade. Que histria era aquela?
   - ... honrado por ser o porta-voz da gratido de todos ns - continuou Miguel. - E aliviado por poder estar aqui, inteiro e vivo, graas ao herosmo do senhor, 
detetive Andrade. H mais pessoas que deveriam estar aqui, agradecendo ao senhor. Mas no caberiam todos nesta sala, porque o senhor salvou a humanidade inteira. 
A vida inteligente deste planeta esteve ameaada pela Droga da Obedincia e pelo sinistro Doutor Q.I., o crebro criminoso que organizou essa terrvel ameaa!
   Andrade teve vontade de interromper o rapazinho, de dizer que continuava investigando, que a captura do Doutor Q.I. era uma questo de horas, mas sabia que aquilo 
no era verdade. O comandante da Pain Control havia se vaporizado como uma gota de gua no ferro quente.
   - Infelizmente - continuou Miguel -, o Doutor Q.I. escapou. Na certa vai passar um perodo na sombra, antes de atacar novamente. E ele vai atacar, estou certo 
disso.  uma ameaa perigosa. Jamais descansar enquanto no realizar sua nsia de poder absoluto.  preciso peg-lo, detetive Andrade. Ningum poder dormir sossegado 
enquanto esse homem estiver  solta.
   Miguel aguardou um instante. Seu discurso estava tomando um rumo inesperado, e todos os presentes estavam em suspense.
   - Eu falei com o Doutor Q.I. somente atravs daquelas telas de comunicao que havia na Pain Control, mas falei. No foi possvel ver o seu rosto, porque ele 
estava sempre na sombra. Nem adiantaria tentar reconhecer a voz dele, porque o Doutor Q.I. usava uma espcie de filtro de som que lhe alterava a voz. Era quase como 
falar com uma mquina. Existe, porm, uma caracterstica da personalidade de cada um que  impossvel esconder com sombras, com filtros de som ou com qualquer outro 
artifcio. Essa caracterstica  o pensamento.
   Aos poucos, um leve mal-estar foi tomando corpo e atingindo a todos naquela sala.
   - E eu me lembro perfeitamente das palavras e da maneira de pensar do Doutor Q.I. Como se ele estivesse falando agora. E, se ele estivesse falando agora, provavelmente 
diria que eu estou olhando de um lado s da questo. Diria talvez que as coisas so relativas e que a verdade tem vrias facetas.
   Miguel voltou-se para o diretor do Elite, que ouvia atentamente.
   - Lembra-se, professor Cardoso, quando tudo isto comeou, no faz nem uma semana? Lembra-se da nossa conversa, quando o senhor dizia que era melhor manter o desaparecimento 
do Bronca em segredo para proteger a imagem do Elite? Lembra-se que discordamos a esse respeito?
   - Lembro-me vagamente, Miguel.
   - Vagamente! Ento, na certa, no vai lembrar das palavras que usou naquele momento, no ?
   - Das palavras? - sorriu o diretor. -  lgico que no!
   - Pois eu me lembro.  uma questo de entender o raciocnio das pessoas, o modo de pensar das pessoas atravs do que elas dizem. O senhor me disse que eu era 
muito jovem, no ?
   - Talvez tenha dito isso, sim.
   - E que eu olhava as coisas de um lado s, no ? Que eu haveria de aprender que as coisas so relativas, no ? Que a verdade tem vrias facetas, no ?
   O professor Cardoso recuou, como se fosse empurrado pelas palavras de Miguel.
   - O que  isso? Uma brincadeira?
   - No  uma brincadeira, professor Cardoso. Ou devo dizer Doutor Q.I.?
   O homem estava branco como papel. Continuou recuando at encontrar a sua grande mesa de diretor e olhou suplicante para Andrade.
   - Detetive Andrade! O senhor est fazendo parte deste jogo?
   - Eu no estava, professor... Doutor... sei l! No estava, mas agora estou. Vou acabar me acostumando a ser envolvido pelas estripulias desses garotos!
   - Isso  um abuso! - protestou o acusado. - Sou o diretor deste colgio e no admito ser desrespeitado dessa maneira! Eu dirijo um colgio democrtico, um modelo 
de educao liberal que...
   - Excelente disfarce, no , Doutor Q.I.? - interrompeu Miguel. - Quem haveria de desconfiar que o respeitabilssimo e ultraliberal diretor do Colgio Elite pudesse 
organizar a experincia mais ditatorial e demente que j existiu?
   O rosto do homem passou do plido ao rubro, e sua voz saiu carregada de dio assassino:
   - Maldito! Moleque maldito! Eu devia ter mandado matar voc no primeiro minuto! Fui acreditar na sua inteligncia e voc destruiu tudo! Ignorante! Voc destruiu 
a salvao da humanidade! Estpido!
   Mesmo enquanto Andrade o arrastava para fora, algemado, o Doutor Q.I. continuou gritando:
   - Ignorante! Voc destruiu um sonho! O maior sonho do mundo!
   
   
3O. Temos de continuar!
   
   - Pois  isso, meus amigos. Com a ajuda da Interpol, investigamos direitinho a Pain Control.
   Andrade e os cinco Karas tinham marcado encontro num lugar discreto, pois assim havia pedido Miguel. E esse lugar era o zoolgico.
   De camisa esporte, caminhando pelas alamedas do Zoolgico de So Paulo, com um sorvete na mo, o detetive Andrade mais parecia um professor cercado por seus alunos. 
Naquele dia, Andrade no estava suando.
   - O Doutor Q.I. comandava toda a organizao em uma salinha secreta que s tinha entrada pela sala da diretoria do Elite. Ali descobrimos o intercomunicador. 
Mas a minha curiosidade era saber como o Doutor Q.I. poderia ter controlado daquela maneira uma empresa importante como a Pain Control. Com a ajuda da Interpol, 
porm, recebi a resposta em menos de um dia.
   - Eu tambm tinha pensado nisso, detetive Andrade - disse Crnio. - O que descobriu?
   - Os acionistas da Pain Control esto espalhados pelo mundo inteiro. Uma firma de advogados conseguiu uma procurao de todos eles para represent-los na assemblia 
de acionistas. Acontece que o Doutor Q.I. controlava a tal firma de advogados. Assim, foi fcil eleger testas-de-ferro para dirigir todas as filiais da Pain Control, 
enquanto o prprio Doutor Q.I. ficava por trs de tudo, comandando a todos.
   - Eta sujeito brilhante! - comentou Cal.
   - Um dos mais brilhantes criminosos que j conheci - concordou Andrade.
   - E o que vai acontecer com os bandidos?
   - Todos vo responder processo como co-autores dos seqestros e dos assassinatos. A maioria dos funcionrios e operrios da Pain Control estava fora da trama. 
Trabalhavam apenas com os medicamentos normais e nem desconfiavam da existncia da Droga da Obedincia. S vinte e poucos deles, incluindo o Doutor Q.I. e o detetive 
Rubens, sabiam dos meninos seqestrados. A rea do prdio onde ficavam os seqestrados era proibida para os outros funcionrios.
   - E o Bino?
   - J conseguimos peg-lo. Ele agia sob vrios nomes: Bino, Caca, Joca e muitos outros. O plano era simples. Um dos bandidos aparecia em um colgio pedindo que 
seu "filho" freqentasse as aulas por uma ou duas semanas at que fossem liberados os documentos do colgio anterior. Fornecia um endereo falso e pronto. Em geral, 
todos os colgios aceitam provisoriamente matrculas desse jeito. Por isso o plano de colocar o Bino em qualquer colgio que quisessem sempre dava certo.
   - Bino tambm est preso?
   - Ele  menor de idade. Est  disposio do Juizado. O juiz de menores  que vai decidir a sorte do Bino.
   Estavam todos apoiados na mureta que d para o fosso dos ursos-pardos. Aquelas enormes almofadas marrons pareciam to quentes e fofinhas que Chumbinho ficou imaginando 
como seria gostoso descer at l e abraar-se com um deles. Crnio quebrou o breve silncio:
   - Qual  o verdadeiro nome do Doutor Q.I.?
   Andrade estava acabando de comer a casquinha de biscoito do sorvete:
   - Ainda no foi possvel descobrir. Ele se recusa a falar e parece que no existe ficha criminal dele em nenhuma parte do
   mundo. Mas, qualquer que seja o seu nome, a coisa est bem ruim para o lado do Doutor Q.I. ...
   - Com essa priso, as coisas mudaram l no Elite - informou Chumbinho, esquecendo a vontade de abraar os ursos.
   - Mudou? Como?
   - Com a sada do professor Cardoso, quer dizer, com a priso do Doutor Q.I., a Associao de Pais e Mestres assumiu a direo do colgio.
   - E o que muda com isso?
   - A direo - respondeu Chumbinho. - As decises vo continuar sendo tomadas pelo conselho de professores e alunos. Bem do jeitinho que era com o Doutor Q.I. 
como diretor.
   - E isso mesmo - concordou Magr. - O sistema liberal do Elite  uma criao do Doutor Q.I.!
   - Ele foi capaz de criar um sistema democrtico absoluto, de um lado - raciocinou Crnio -, enquanto tentava criar a mais absoluta tirania, do outro...
   Andrade colocou as mos nos ombros do lder dos Karas:
   - Ele sabia olhar as coisas pelos dois lados, no , Miguel?
   - Era um crnio! - concluiu Magr.
   - Ei, espera a! - protestou Crnio. - O nico Crnio do mundo sou eu!
   
   ***
   No quarto de Miguel, o aparelho de televiso ligado jogava uma luz azulada sobre o corpo do rapazinho estirado na cama, com a cabea apoiada nas mos cruzadas 
atrs da nuca.
   Miguel olhava com ateno para a querida imagem do detetive Andrade, suando sob o calor das luzes dos refletores, no debate sobre o assunto do momento: a Droga 
da Obedincia.
   Educadores, psiclogos, socilogos e figuras de respeito da sociedade participavam do debate. Andrade, entre elogiado e pressionado, saa-se da melhor forma possvel.
   Enquanto as palavras do debate percorriam os sentidos do garoto, uma sombra passou pelo seu nimo. Uma ponta de remorso. Aquele policial to dedicado, que passara 
noites sem dormir investigando os seqestros. s tinha merecido suspeitas por parte de Miguel. E Rubens, elegante demnio, tinha enganado completamente o lder dos 
Karas.
   - A sociedade inteira tem uma dvida de gratido para com o senhor, detetive Andrade - dizia um dos debatedores.
   Lder dos Karas! Que ironia! O pensamento de Miguel afundava cada vez mais naquela dolorosa autocrtica. Que lder era ele, se tinha considerado Chumbinho um 
fedelho intrometido, de quem os Karas deveriam livrar-se? Logo Chumbinho, o pequeno heri que tinha enfrentado as piores situaes sem fraquejar jamais? Logo Chumbinho, 
que tinha passado aos Karas as mais importantes informaes que haviam possibilitado a soluo daquele caso? E logo Chumbinho, que tinha desligado a chave geral 
de energia da Pain Control, evitando uma batalha sangrenta no final da histria?
   Na televiso, um senhor muito afetado falava com entusiasmo:
   - A questo mais importante a discutir neste debate  a prpria Droga da Obedincia. Quais seriam realmente seus efeitos? Quais os seus danos?
   Lder dos Karas! Mas no tinha sido ele, o prprio Miguel, quem havia jogado Chumbinho contra Bino, pensando que Bino era um inocente novato? Grande lder! Nem 
mesmo a mensagem de Chumbinho ele tinha entendido... Ele imaginara que o B da mensagem queria dizer que Bino tinha tambm sido raptado, quando Chumbinho tentava 
informar que Bino era o oferecedor... Quanto tempo perdido por causa daquele erro!
   - Os efeitos da Droga da Obedincia poderiam at ser bem-aplicados - dizia outro debatedor. - Ou mal-aplicados, como no plano sinistro do Doutor Q.I....
   Grande lder! Um lder que havia exposto todos os Karas  quadrilha do Doutor Q.I., com a idia de fingir que todos tambm haviam sido seqestrados. Que idia 
estpida!
   - Seqestrar e manter em crcere privado dezenas de meninos e meninas foi realmente um crime hediondo - protestou outro debatedor. - Mas  claro que no podemos 
ficar contra a energia nuclear s porque jogaram uma bomba atmica em Hiroxima!
   A depresso tinha tomado conta de Miguel.  sua memria vinha a imagem do Doutor Q.I., tentando convenc-lo a fazer
   parte da quadrilha, com um argumento aterrador: no era ele, Miguel, uma espcie de pequeno ditador dos Karas? No era ele, Miguel, um autoritrio? Ele era obrigado 
a concordar com o Doutor Q.I. Sim, ele era um ditador. Sim, ele era um autoritrio. E, mais que tudo, ele era um lder incapaz, que havia errado vrias vezes durante 
aquela batalha...
   Uma lgrima percorreu a face do garoto e foi salgar-lhe a boca no momento em que ele decidia que o melhor era dissolver o grupo dos Karas. Ele no poderia expor 
aqueles quatro maravilhosos amigos  sua incapacidade e ao seu autoritarismo...
   Na televiso, o clima estava explosivo. Todos queriam falar ao mesmo tempo, e Andrade, suando como nunca, tentava interromper o orador, que berrava entusiasmadamente:
   - A Droga da Obedincia, como todas as descobertas cientficas,  um bem! Devemos pesquis-la e us-la com cautela, sob o controle das entidades governamentais. 
Vivemos atualmente uma crise de autoridade, que pode ser resolvida com a Droga da Obedincia! Afinal de contas, um pouco de obedincia no h de fazer mal  nossa 
juventude!
   Os olhos de Miguel apertaram-se. Ento todo aquele trabalho s tinha servido para aquilo? As pessoas mais importantes da sociedade julgavam que a Droga da Obedincia 
poderia ser um bem?
   Miguel pressionou o boto do controle remoto e o televisor apagou-se. Deitado no quarto s escuras, o rapazinho decidiu que no importavam os erros. O que importava 
era a luta, que tinha de continuar. O que importava eram os Karas, que tinham de continuar!
   Havia ainda muito a ser feito. Os Karas tinham vencido uma batalha, mas a guerra ainda estava longe, muito longe de terminar!
   


AUTOR E OBRA

   Eu nasci em Santos no dia 9 de maro de 1942, e estudei por l at 1961, quando me mudei para So Paulo para estudar Cincias Sociais na USP. Morando na capital 
do Estado desde ento, casei-me com a Lia, contribuindo para a exploso demogrfica com trs meninos: o Rodrigo, o Marcelo e o Maurcio. Fui ator, jornalista, publicitrio 
e escrevo livros desde 1982.
   Bom, se voc quiser saber mais detalhes da minha vida, leia as notas biogrficas que esto nos livros Pntano de sangue (com os Karas), Anjo da morte (tambm 
com os Karas),  proibido miar, Malasaventuras - safadezas do Malasarte, A marca de uma lgrima, O fantstico mistrio de Feiurinha, O elefante assassino, Agora 
estou sozinha, O mistrio da fbrica de livros, Minha primeira paixo e Na colmia do inferno. Aproveite e leia tambm as histrias, que so muito boas. Agora, eu 
quero falar do nascimento de A Droga da Obedincia e da dor de cabea que a provocou.
   No, voc no entendeu direito. No foi a Droga da Obedincia que me provocou dor de cabea; foi a minha dor de cabea que provocou (inspirou) A Droga da Obedincia.
   H anos eu sofria de uma brutal dor de cabea (espero que no volte...), chamada cefalia de Horton.
   Certa madrugada, acordado por uma crise violenta, fui para minha mesa de trabalho esperar que passassem os habituais 50 minutos de dor. Enquanto as lgrimas, 
tambm habituais nessas crises, corriam pela minha face direita, que se inchava e avermelhava, eu pensava quanto era injusto aquele sofrimento: a injeo que fazia 
cessar imediatamente a dor, por interesses puramente comerciais, deixara de ser fabricada.
   Ali estava eu sofrendo porque, l na distante Sua, algum assim determinara. Fiquei pensando, ento, que existem vrias maneiras de se exercer o poder. Que 
uma empresa, capaz de controlar a durao ou a intensidade da dor que algum possa ter,  mais poderosa que um exrcito.
   O controle da dor! O controle das mentes! O controle da vontade! A humanidade controlada por drogas, os desejos regulados, os protestos abafados! A obedincia 
absoluta! A humanidade acarneirada por uma droga!
   Pensei tambm: mas ser que isso  apenas fico? Ser que tudo isso j no est acontecendo atualmente com a jovem humanidade drogada, vagando como idiotas semimortos, 
sem f no futuro, sem f em si mesmos e j sem a fora e a garra de que tanto precisamos?
   Seria tambm impossvel no somar, a essas inspiraes sinistras, toda uma histria de vida permeada pela exortao  obedincia,  disciplina,  aceitao passiva 
de um mundo comandado de cima para baixo, em um pas esmagado pela tutela insana de um autoritarismo obediente, ele tambm, a interesses externos.
   Assim nasceu A Droga da Obedincia. No  importante gostar do livro ou concordar com ele.  importante pensar no assunto.
   Ai, quem me dera que um mundo de jovens de rbitas vazias fosse apenas fico!
   
Pedro Bandeira
